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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Uma questão a não pensar


a António Pedro Ribeiro


Só seremos poetas quando soubermos
posicionar os Corpos ao levantarmo-nos da cama
todas as manhãs.
Desengane-se quem julga que tem que ver com caneta e papel,
inspiração, uns libertadores copos e leituras referenciais a mais:
essa Força criadora também não selecciona horas, objectos ou rudimentares
estados emocionais;
para ela a paixão tem o valor de uma pedra, o tumulto o esguicho de uma maçã trincada, a meiguice a primeira aguada
[porque tudo é Uno quando sabes quem és]
mesmo emaranhado nas rotineiras demãos e,
se fores poeta,
saberás que a tua cor não se esbaterá nessa tela do obscurecimento
dos mitos parciais,
saberás que te encontras inteiro, mesmo que espartilhado;
porque o futebol, a literatura, a religião, a política,
todo o dinheiro que compra as marcas,
os gajos bons e as gajas boas de mamas boas,
dissolvem-se nesse Verso Maior que és tu desde o início da Eternidade
em que já eras o Verbo
e o Sujeito, com todos os Predicados e todos os Complementos:
as caixas de comprimidos, a mãe, os amigos dos amendoins tertulianos, as musas cibernéticas e antitéticas
e as horas que marcas a sós contigo para te desencontrares.

“A questão” já não é se queres pensar como os filósofos e escrever como os poetas, ou vice-versa.
“A questão” é para quê pensar tanto – tantos os conceitos, tantas as palavras! –
sendo que já és o homem-poema-Coração-por-se-escrever.


Suzana Guimaraens

terça-feira, 20 de abril de 2010

Não lutes contra a Tua expansão.

Prepara-Te para o inacreditável.

Entrega-Te.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Descansar as asas


Resolvo parar num sítio não muito alto
para descansar as asas
e observar tudo mais de perto.

Agora estou aqui,
parada;
agora aqui, voando [voando o aqui comigo].

– Hoje é assim: ligeiramente diferente dos dias em que sou um Bando.


Suzana Guimaraens

segunda-feira, 12 de abril de 2010

hálito

deixo-te o meu hálito a Tendais:
orvalho de Primavera
na palma dos teus dois metros quadrados
de mão cega


Suzana Guimaraens

sexta-feira, 5 de março de 2010

Apetece-me comer um ramo de violetas



Dada – mulher ou homem, menina ou menino, aparentando deficiência mental pela linguagem corporal e expressões do rosto; não importa a idade; nunca olha para as pessoas enquanto fala; apenas brinca, entretendo-se com qualquer coisa; mexe-se muito de um lado para o outro, ora no chão, ora de pé, sempre energicamente; faz parte do Sem-abrigo: é a Eterna Criança sábia.

Sem-abrigo – homem, não importa a idade; entre a posição de cócoras ou deslocando-se de joelhos enquanto fala, em sofrimento constante, até ao momento em que se liberta.

Grávida – faz profundo e demorado contacto ocular, ora com o público, ora com as personagens; postura de costas firmes e erectas; ora com uma, ora com ambas as mãos no ventre; mexe-se muito pouco e sempre com bastante doçura; sorridente e serena; faz parte do Sem-abrigo: é a mãe dele, a Eterna Mãe, o seu lado feminino.



Dada (sempre a brincar como uma criança/ adulto com deficiência mental/ autista) Por que preferes enroscar-te sozinho em arame farpado?

Sem abrigo (aninhado a olhar para o chão, a abraçar-se) Há quem opte por carregar uma cruz ou pregar-se nela. Usar máscaras. Às vezes acompanhados, outras sozinhos… Tenho visto de tudo.

Dada – Não passam de opções… Opções científicas. O que me confunde é por que te enroscas e crucificas tão bem, sem teres conseguido ainda avançar para o resgate.

Sem abrigo(continuando aninhado, mas a olhar para alguém do público) Eu preciso de enroscar-me em arame farpado. Há alturas em que não sei o que fazer e tenho de fazer qualquer coisa… Não tenho fome, tudo me enoja! Não tenho frio. A cabeça não pára, não param de entrar ideias de todo o tipo, pensamentos que se entranham… Fazer qualquer coisa para me esvaziar. E faço comigo. Não magoo ninguém. O que tem isso de perverso? Ou também é pecado? Tenho de sentir-me culpado também por isso? Eu sinto-me… Sinto-me culpado por isso. Sinto-me culpado por tudo. E tenho de fazer qualquer coisa. Na escola não me ensinaram outras letras, outros gestos, números alternativos. E eu sou um produto. Um produto que se sente culpado e que tem de fazer qualquer coisa e, então, enrosca-se em arame farpado.

Dada – E se fundisses a imagem do menino na manjedoura com o Cristo a elevar-se da cruz?

Sem abrigo(ri-se desalmadamente; silêncio prolongado e constrangedor; depois a olhar para quem falou em Cristo) Quem é esse menino?... E Cristo?

Dada – Cristãos, hindus, budistas, judeus, todas as seitas, agnósticos, ateus, o que for, todos têm o direito de fazer a sua reinterpretação de Cristo e a continuar a Éeestória ou a Hiiistória. Ou não... (encolhe os ombros, como se não lhe interessasse.)

Sem abrigo – O que é a “Éeestória” e a “Hiiistória”?

Grávida (aparece com as mãos no ventre) A história é o que nós quisermos, sempre que quisermos. O mundo interior. Esse onde pensamos, sonhamos e sentimos. Mesmo sem existir. Se sentires, o que importa se existes ou não? Se a história reza ou não reza? Se é da Carochinha ou compendiada na Luso-brasileira?

Sem abrigo – Aos 12 anos eu pensava nos judeus com quem os nazis fizeram sabão e chicotes em laboratório, nas câmaras de gás; nas portuguesas e nos portugueses que foram torturados durante a ditadura; na minha mãe comigo ao colo no autocarro, de Gaia a Braga, e nas fraldas não descartáveis, todos os dias úteis até, eu, naturalmente, deixar de usar fraldas… Rezava… Uma vizinha contou-me que a minha mãe rezava muito nessa altura. “O mundo está podre, meu querido filho! O mundo precisa de oração!”- dizia ela com todo o fervor. Rezava, rezava muito, toda ela trovão e carne. Morreu 4 meses depois de eu ter deixado as fraldas. Nunca me ensinou a rezar. Não tivemos tempo.

Dada – Todos Cristos. Até tu. Cristos que nem se lembram, nem aceitam Cristo.

Sem abrigo – Quem é Cristo? Soa a coisa velha… (como se tentasse evocar na sua memória)

Grávida (a sorrir, como se soubesse mais do que o que conta) Não sei bem. Mas o Zé das barbas dizia que tinha andado com ele na escola e que lhe escarrava nas costas, sem ele se aperceber. Depois dizem que se arrependeu muito e que, por isso, obrigou-se, com profundos remorsos, a ler revistas de jetset e a envolver-se em todos os escândalos dos faamous avulsos, a ver desfiles faaashion, filmes blockbuusters, as telenovelas que podia, a ir ao futebol (como uma questão de vida ou de morte), a ir às paarties todas e a ser alcoólico; tudo como penitência, para ser um cidadão alheado. Para não ter tempo de ser. Para não ter tempo de impor a sua existência a ninguém. Porque Cristo, para ele, era poder e, assim sendo, não devia ser incomodado… Para o pobre Zé das barbas, que morreu a fazer a barba com uma navalha, às 5 da manhã no dia dos namorados enquanto usava um papillon cor-de-rosa às bolinhas brancas, que logo ficou todo escarlate escuro. É… Para ele Cristo era poder.

Dada – o Zé das barbas também foi um Cristo… Mas daqueles que nunca chegam a ressuscitar. Que nunca chegam às cadeiras altas, nem vão para além das nuvens. Pena ele não ter descoberto a tempo que a cruz é um brinquedo e as asas também (enfim, daqueles que não se vêem acoplados a pessoas reais, mas que se sentem mais do que aqueles que se vêem); são também brinquedos que podemos usar ou não. Mas ele tinha razão: Cristo é poder. Poder individual que se partilha por aqui (aponta para o coração dele) e se transforma em força suprema. Mas é tudo só a brincar.

Sem abrigo – Ainda não percebi quem é Cristo…

Grávida – Podemos ser Cristos ressuscitados, humanos sacrossantos, anjos de carne e osso – tudo ao mesmo tempo – se nos aproximarmos o suficiente da nossa cruz, ao ponto de conseguirmos arrancar os pregos à nossa própria imagem crucificada. Depois é só curarmos as feridas com Aloé Vera de brincar (olhando para Dada e piscando-lhe o olho); serrarmos a cruz ao meio ou, de preferência, em vários pedaços; esquecer, por momentos, o buraco de ozono (que consta estar a fechar) e fazermos uma imensa fogueira para iluminar uma Noite como esta…

Sem abrigo – Eu não quero ser Cristo. Ser Cristo é sofrer e levar escarradelas nas costas sem se saber e, depois, dá demasiado trabalho essa coisa da cruz…

Dada – Não percebeste ainda que já sofreste o que tinhas a sofrer? Que Cristo já és, com espinhos, cruz, arame farpado e todas as chagas?

Sem abrigo – E será o suficiente…?

Grávida – Incrível. Continuas a escolher enroscar-te.

Sem abrigo – Nunca soube ser diferente. Nunca me ensinaram no orfanato. Nem a mim nem a esse Zé das barbas… Houve um tempo em que eu deveria ter andado a anti-depressivos e a anti-psicóticos. Mas escolhi a cocaína. Não sei se não teria sido melhor também ter cortado a carótida, distraidamente, ao fazer a barba. Assim parava a cabeça, parava o resto. Agora nem navalha tenho. Agora não tenho onde dormir e não consigo deixar este arame. Eles dizem que é por causa da crise que estou como estou. Por estar desempregado. Por me vender para poder... Vocês sabem… Sobreviver. Mas eu acho que é por nunca me terem ensinado, em criança, a viver sem este arame, a rezar como a minha mãe.

Dada – Não. Já não és criança há muito tempo. Desaprendeste o brincar, o riso, o falar com as estrelas. Estás assim porque o electromagnetismo do nosso planeta está a mudar. E vês que continuam a envenena-lo todos os dias e ninguém pára e tu não consegues comer, enquanto observas o veneno à tua volta a espumar. Estás assim, porque os teus fantasmas vieram ao de cima e é o que vês todos os dias, mesmo sem te olhares ao espelho, porque já nem espelho tens.

Grávida – Estás assim porque sabes que os espelhos andam a iludir todos os imprudentes que mastigam e deglutem, entre o veneno, o próprio veneno. E já nem precisas do espelho. Estás assim porque tudo aquilo em que acreditavas está a desabar. Porque acordas cansado de ser como és e queres mudar, mas não sabes como.

Sem abrigo – Não, não sei mudar. Sozinho não…

Grávida – Vá… Larga o arame. Vai doer um pouco, mas já suportas dor há tanto tempo, que nem vais notar. É uma dor que resgata e logo sara. Depois ensinamos-te a rezar sem pieguices. Mas substituis o sinal da cruz pelo sinal do coração. Assim… (faz o gesto de um coração com ambas as mãos) Em nome do Pai, do Filho, que sou Eu, e da Eterna Mãe, Ámen! Vamos lá…

Todos(repetem fazendo o gesto) Em nome do Pai, do Filho, que sou Eu, e da Eterna Mãe, Ámen!

Sem abrigo(Grávida tenta tirar o arame invisível; ele ajoelhado) NÃO! Dói demais! Não consigo… Vou estalar pelas fístulas! (cai prostrado no chão, respirando, sôfrega e descontroladamente) Tenho medo... Esvaio-me… Sinto o meu coração a bater tão rápido! Cada batida aproxima-me mais da morte, eu sei, eu sei, eu sei…! (a falar cada vez mais baixo e escondendo a cabeça entre as mãos e braços)

Dada – Porém, faz-te mais vivo do que nunca.

Sem abrigo(Grávida e Sem Abrigo tiram devagar o arame invisível e deixam-no cair no chão enquanto ele fala) Faz? (continua a respirar muito ofegante)

Grávida – Meu querido filho, nem a respirar te ensinaram… Vá, comigo!… Inspira profundamente… Expira o dobro do tempo… Isso, deixa essa peçonha sair toda cá para fora… Outra vez……. Outra....... Isso.

Sem abrigo(mais calmo) Mas será que existo? E Cristo… Será que existiu?

Grávida – Não sei dizer-te. Talvez ninguém saiba, ao certo. Muitos acreditam cegamente que sim, outros afirmam e fundamentam que não, mas ninguém sabe, de facto. Contudo, agora falamos dele. Estranho, não é? Mesmo sem sair na Scientific American. (sorri e muda de posição; fica de costas para ambos) Dizei-me, não sentis nada a falar dEle? Tendo Ele existido ou não? Talvez a Bíblia tenha mentido desde sempre, talvez seja tudo verdade, talvez apenas metade, mas não sentis nada? (coloca as mãos no seu ventre)

Dada – “Sem mente, não se mente”. A carne, o papel, a palavra são a ilusão.

Sem abrigo – Então, o que fazemos aqui? O que acrescentamos para além da palavra escrita, falada e disto que somos?

Grávida – O que sentes, o que desejas, o que carregas dentro, mesmo que penses que te esqueceste.

Dada – Olha à tua volta. Tudo, Todos te absorvem.

(silêncio e imobilidade total)

Grávida – Tudo, Todos te absorvem.

Sem abrigo (levanta-se muito lentamente; braços abertos tentando manter o equilíbrio, mas também evocando Cristo crucificado; sorri, finalmente, de pé) Apetece-me… Apetece-me comer um ramo de violetas… A voar. (ri enquanto olha para Cima; Grávida e Sem-abrigo misturam-se entre o público, mas ele não se apercebe; pensa falar para eles) Escutem-me bem: tenho fome de flores, sede de ser asa, sou o vale onde arde a cruz que outrora fui, onde se encarquilha e derrete o arame farpado que foi a minha casa, sou um cálice que transborda centelhas soltas de Sol, o antídoto de mim, água-diamante que caminha, um porto que se acolhe a si mesmo, um “Portograal”… (olha à volta e vê que ambos, Dada e Grávida, desapareceram; breve silêncio de constatação – compreende que Grávida e Dada fazem parte de si mesmo – baixa a cabeça, acenando que sim com a cabeça; reergue a cabeça) Escuta-te bem: és o teu fim e o teu princípio: quase morreste para seres menos corpo e mais consciência. Sentes tudo mais perto. Agora só terás paz, quando todos… aqui… também. (pausa) Em nome do Pai, do Filho, que também sou Eu, que também sou Eu, que sou Eu, também, e da Eterna Mãe… Assim já é. (sinal do coração com ambas as mãos, que no fim do gesto ficam unidas, palma com palma, junto ao xifoíde; baixa a cabeça, em reverência a si mesmo, levanta a cabeça; olha para (quase) todos, mesmo nos olhos, muito sério, não ameaçador, expectante; sai.)

Suzana Guimaraens

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

domingo, 24 de janeiro de 2010

sábado, 23 de janeiro de 2010

sábado, 26 de dezembro de 2009

sem título

Simon est mort
Simon está muerto
Simon is dead

e não terá sido inédito: leucemia rimou com pneumonia
enquanto ele ia; todavia, não devia, que bem o sabia
porque a saudade da companhia certa faz, por vezes, tocar à campainha errada
e parecem meras letras escritas em cima da cabeça,
porém é essa a ilusão

e os corrompidos até poderão esfregar as mãos pelo seu pretenso silêncio
e o cabelo dela ainda ondular no ar depois desse gesto hierático
– como um berilo –
e até o teclado apoderar-se do pó e da cinza,
mas é a saga da ilusão
porque os corrompidos não entenderam que o seu rouge é de longa duração
(como as pilhas de alguns gatos)
assim como não compreenderam que
a liberdade foi a prenda que ele se ofereceu neste Natal
e a ela
uma liberdade por embrulhar
por ser [demasiado exacta]
daquelas que aliciam a continuar jornadas
(na sua pretensa ausência)
para que ela acreditasse na presença deles
e na nossa
bem como nestas palavras

: que ele sempre soube que ninguém precisava de ninguém para se proteger,
mas havia palavras por dizer que foram ditas
– como águas-marinhas –
palavras que fizeram vidas
e mais palavras que atestaram outras
que irão continuar
e agora
Simão morreu,
mas não é a morte:
“é a vida!”
e a vida não é [Coisa] para chorar


Suzana Guimaraens

domingo, 20 de dezembro de 2009

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

domingo, 12 de julho de 2009

terça-feira, 2 de junho de 2009


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