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segunda-feira, 7 de março de 2011

Este Texto





Este texto é para me matar
talvez uma essência de poema
da pétala de um homem
com a língua nos olhos

(...)


Suzana Guimaraens

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Posso? (abridged)

– Posso?... Senhoras, senhores, arrumadores, doutores, da ponta dos meus alvos bigodes (de duas vidas e nove semanas e meia) desejo que o vosso dia flua como um re-gato que se diverte por entre os óbices!
Está um bulldog francês sentado ao fundo do corredor, mesmo em cima da minha cama, e um rei-noceronte em saltos altos (aos pulos que nem uma besta) em cima da mesa da sala e, logo agora: hora da sesta! E sinto-me abstrato, como se não fora um gato, nesta conjuntura surreal. E, em astral pirueta, voo para o telhado.
Dizem-me falhado, errático, demasiado hermético, ensimesmado questionador sistemático: – Por não ambicionar oportunidades para ingressar em cenários precários? Pois bem, sou snob e fofo o suficiente para ser eu a Oportunidade; até rasgaria com empenho a cortina, se isso vos descortinasse a Verdade (ainda que em pedaços) e, áspero, todo língua, lamber-vos-ia os tarsos. Porém (atenção!) jamais dama de companhia, vigia de gatatónicos com miopia, entupidos em cagaços: Não!
Desprezarei sempre o medo que inventais (estrangulá-lo-ei, como fizeram aos meus pais) mas só até que ele tenha medo de mim. Nem quero a estima de um dono: dá-me sono, genuíno tédio esse assédio do apego. Sim, prego a minha religião sem legião. É, sei lá, uma vocação: todo Atitude, peregrino da Virtude, trepar pela sim-dade, enquanto os não-rrrrmais pensam dorrrmir. Seduzo e conquisto a Lua e deduzo, a partir de hoje, miar diariamente às vossas antenas, como nunca antes se ouviu: Sonhai e Criai todos, saí do marasmo, fazei da Vida um Orgasmo, Fartura em todo o lado, Abundância em leitinho, “uh-ah-zubi-zaba-nobi” (oh, que alegre fado!) e, vá, votai no Gatinho… Miu?


Suzana Guimaraens

domingo, 23 de janeiro de 2011

Posso?




fotografia de Carlos Silva



– Posso? É aqui o planeta Natal?
Senhoras, senhores… Arrumadores, doutores, da ponta dos meus alvos bigodes (de duas vidas e nove semanas e meia)
desejo que o vosso dia flua como um re-gato que se diverte por entre os óbices!
Bom, na verdade, não era bem isto que eu queria miar…
: está um bulldog francês sentado ao fundo do corredor, mesmo em cima da minha cama e um rei-noceronte em saltos altos, aos pulos que nem uma besta, em cima da mesa da sala, e logo agora: hora da sesta.

E sinto-me abstrato, como se não fosse um gato, nesta conjuntura surreal
; talvez seja uma questão química e cultural, mas estais a ver um gato no palco, a carecer de desabafo? Nem eu. E uma gata de gravata a fazer do seu gato
gato-sapato?
Até parece mentira, porque ainda ontem, passei por um gato cego
que me leu as palmas e me agoirou um futuro cada vez mais feliz, mas estava demasiado entretido a rilhar um osso de baleia para me dar conselhos; a sua esposa yuppie miava-lhe o jornal por entre rabugentas entrelinhas,
qual Xantipa, como se eu não estivesse ali e não hesitei outro telhado.

Dizem-me falhado, gato errático, operático, ensimesmado, questionador sistemático que se insubordina ao poder:
“porque se der trabalho, é pr’arder!”, mas não é nada disso, enfim…
Tenho a certeza do perfeito caos das ideias que me imaginam
; da realidade que encenais todos os dias, nem tanto assim.

Não almejo oportunidades para entrar nos vossos cenários precários
– sou snob e fofo o suficiente para ser eu a Oportunidade
e até rasgaria com empenho a cortina, se isso vos descortinasse a Verdade
(ainda que em pedaços) e áspero, todo língua, lamber-vos-ia os tarsos.
Porém (muita atenção!) jamais seria dama de companhia,
vigia de gatatónicos – dos retratistas, aos radiofónicos – com azia,
entupidos em cagaços: Não!
Sei, portanto, que irei sempre estancar o medo que inventais
– estrangulá-lo, como fizeram aos meus pais e aos meus irmãos –
todavia, só até que o medo tenha medo das minhas mãos... sim: Mãos!
E não quero ter a esperança pela estima de um dono: dá-me sono, tédio genuíno esse assédio do apego.

Sim, prego a minha religião sem legião; é, sei lá, uma vocação
: ser todo Atitude, peregrino da virtude, gatinhar assim pela sim-dade
enquanto os não-rrrrmais pensam dormir, seduzir a Lua (sobretudo a Nova, porque não preciso de a ver para a sentir) e deduzo, a partir de hoje, miar diariamente às vossas antenas como nunca antes se ouviu
: sonhai e criai todos, saí do marasmo, fazei da vossa vida um orgasmo, fartura em todo o lado, abundância em leitinho, “uh-ah-zubi-zaba-nobi”
(oh, que alegre fado!) e, vá, votai no gatinho… Miu?


Suzana Guimaraens

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

"Pestanejar na escuridão"


"A Poeta é incerteza, suma sacerdotisa do paradoxo ponto ela ou dúvida que arrasta à pesquisa dissecante pelo território trépido e fluido dos significados. Assim é que oscilando dissolve interrogações para atingir espaços acústicos que são ecos pelas margens dos ouvidos, espelhos nos horizontes dos olhos e no hálito pulsátil dos lábios, um tremor de oásis. A leitora segura-se nas velas páginas à distância pouca dos antebraços telescópios e enfuna em orgulho, vasto, a húmida estreiteza do peito (transido de nevoeiros) que estoira num foguetório sinfónico, por ser ali, numa página ímpar, nome que se escreveu em digressão e cursivo, por primeira vez, tinta em folha-papel de livro-poemas, sombra clara."

Sun Iou Miou em Isto non é un cabaré!

A "incerteza", hoje, é:

onde mora a Poeta que habita a Prosa comendo a Metáfora?

domingo, 19 de dezembro de 2010

PARA

Para não comer cadáveres lavei uma alface com os pés na Terra e comi-a viva.

Suzana Guimaraens

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

SPOKEN WORD

A poesia
a poesia
a poesia
é - pergunto - esse sacolejar de asas transparentes
de inconscientes e possessos anjos?
A poesia – pergunto – a poesia
é esse alar de cinza terrestre em embrião celeste?
A ascensão das fezes e da urina em verso livre ou em rima?
Sumo pontífice, Hierofante
a Metáfora Insondável, o Indescobrível?
Ou o Vómito, deusa em mim?

O corpo pede
(poesia)
mas o mundo fede e a lama bruta invade
e talvez nunca se chegue a saber como se mede
– a poeira e a cinza, sim –
mas [nunca a poesia] e isto que agora somos
: porque já não é tão fácil encontrar trilhos
porque entretanto o preto acinzentou
porque já não há fascistas nem revolução
só os carreiristas, os liberais capitalistas
os compulsivo-consumistas e a podridão dos excedentes
o contrabando legal de estupefacientes e os recipientes ambulantes
; depois há os laptops e os PDAs e os iPods e os iPhones
e os SmartPhones e os BlackBerries
o Skype, a Wikipedia e o Photoshop
o facebook e o bodybook, as webcams e os webcums
os nano-tubos carbónicos e o plasma e as casas inteligentes
os quotidianos frenéticos e os carros eléctricos (“ai, não tem!?... mas, olhe que devia!”)
as relações pragmáticas e as seitas idiossincráticas
as fátimas dogmáticas, as fátimas cépticas e as fátimas… relativas
(“Valha-me Nossa Senhora de Fátima!”)

– “a questão é” quando compreenderei o Outro
com ou sem estilo, terapia ou High Tech.
E é normal que, entretanto, os silêncios, as fomes e as prisões permaneçam
e que os jornais se continuem a enfardar como a bíblia-sem-Saramago
com os filmes e as novelas e as séries e as revistas e os desfiles e os jogos
e os jogos e os desfiles e as revistas e as séries e as novelas e os filmes
até que um diabo de ligas te possua e tu adormeças que nem um anjo.

É: a tua alma cede, mas o teu espírito pede
(sem saberes, mas pede)
poesia e justiça
– o fio de lã e o labirinto –
a justiça, todavia, perdeu-se algures fora do labirinto
porque era um travesti zarolho e confuso
e a poesia e a poesia e a poesia não aparece nem faz nada
a poesia apenas é a poesia e anda por aí e não pede para ser mais nada
nem te pede rigorosamente nada
: para acreditar ou votar ou algemar ou imolar ou casar ou explodir
nem sequer para rimar
; apenas o rigor intuitivo-intuitivo-intuitivo da criação além prosa
e o amor pelo que crias
e a libertação do que crias
e seres a Santíssima Trindade na polpa dos dedos.
(respira)


Sabes que não pões pão na boca de ninguém
nem na tua
mas és a mãe, és o pai e és a cria
e és livre, até de ti
; não sabes como, nem entendes
nem interessa, mas és
e, quando és,
a rosácea estremece
a mão obedece
e é aí que desce

a Poesia?


Suzana Guimaraens

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

AMMA

No pretérito éramos perfeitos.

O Espírito Santo – uma anguiforme mulher incandescente com imensos seios e vários braços com corações
: existências em libações de vinho e mel e afectuosas efervescências líquidas.
Sub-repticiamente dúbios necrotérios alojaram-se nos nossos prédios
e assédios de estranhas pombas brancas
substituíram o sinal do coração pelo sinal da cruz.

Então, inválido de nascença, invadiu o [crédito]. do relógio. das chaves. do carro. da casa. das cruzes de ouro. do ginásio. do crédito – o [crédito].
Imperfeitamente atávicos, voltámos a a-creditar
; alheios aos genes, aos anjos, ao carimbo das Plêiades, à fotossíntese, ao livre arbítrio.
E aprendemos, noutros imóveis, a rezar à medicina imperfeita, não raras vezes,
a [crédito].
Por vezes, porque se paga a pronto, alguns vão às cartas, em vez de irem às putas, mas o Tarot (com todo o respeito) nem sempre nos alcança ou nós a ele…
Mas, que Buda é um jacto de endorfinas, é.


Suzana Guimaraens

terça-feira, 30 de novembro de 2010

BONECA INSUFLÁVEL

Tu, oh, homem a quem Nietzsche já não satisfaz nem Baudrillard!
Por te julgares tão homem, pensas que não podes ter contracções nem parir coisa nenhuma?
; pois bem, há homens que dão mais luz à Vida do que muitas mulheres com ninhadas de dez.
Só tu é que não vês porque temes a imputação, então, amputas-te.
Porque – não sei se sabes – pode haver mais alma num só seixo do que num metro empanturrado de nações.
Porque és tu que tens de escolher os teus trilhos e fazer desabrochar estrelas no teu peito.
E tudo enquanto à tua volta chovem bigornas acesas e a Terra se contrai de dez em dez minutos.


Suzana Guimaraens

in paradox.sou

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

POEMA [QUASE] INÉDITO

wabi-sabi knows: porque o tempo não existe and space there is
knot(s) of eternal nas fechaduras vazias da tua casa
escolhes as eucariotas e os pseudónimos pornográficos
enquanto deixas cair demiúrgicas máscaras sucessivas
de que já nem te lembravas
entre o tease e o strip, murmúrios de sereia e tritão de Sotavento – hélices cibernéticas – oferendam novos mundos ao mundo
de côncavas paredes equiláteras – paredes que largam sementes
; partículas com memória de uma rouquidão [quase] andrógina com medo da velhice

como te compreendo wabi-sabi {o mundo precisa de ti como tu do mundo}
como te surpreendo wabi-sabi por ser tão feita de ti
: o vírus da imperfeição foi a mais sagrada invenção

amostras heart&mind celebram o advento do wabi-sabi

now wabi-sabi knows I know


Suzana Guimaraens

in paradox.sou

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

NO MEU PAÍS AZUL

No meu país azul a bandeira é multicolor e Ama-se o Musgo das Aldeias.
Nele coexistem cidades etéreas e vilas ascensas
; nos telhados há graffitis pintados por crianças de vestes talares
rosas e cravinas a nascer das antenas.

Neste país reaprende-se a respirar todos os dias
e relembra-se a ambivalência do volfrâmio.
Aqui há pais e filhas que alvorecem por cima de aviões
coisas que luzem aos pares – amarelas e vermelhas –
camiões atestados de cerejas e beijos
autocarros com velhinhos que cantam com lábios em arco para cima
[compreendem a sua jamais-extinção]
e flores silvestres que se abrem a astros que ainda não sabemos.

Não obstante, de incertas zonas de sombra, escutam-se tilintares perdidos,
estranhas cacofonias metaloformes, obscenas estridências.
Passam obscuros pombos correio que entregam mensagens transgénicas
(quase sempre fora de prazo)
e em cada divisão entorpecida das casas por onde passam, há caixas com histórias dentro de histórias que nunca acabam; comandos telecomandados por bonecos com assentos e bizarros hobbies
homens que só metem a barriga para dentro para a fotografia
e infecções que os assomam pelos excessos.
Sim, do outro lado entrincheiram-se.

E perdoa não ser anacreôntica, nem esquecer Siracusa
; por não te ofertar épicos finais felizes de mão beijada ou dulcificantes cantos
por não te narcotizar a almofada envolta em flanela
por nunca te ceder a minha Paz.

Contudo, é aqui que eu escolhi [ser]
: neste país azul onde, em todas as direcções,
alam arados sem fios e anacrónicas caravelas de recreio
onde se assam esquilhas no ponto e intrépidas sardinhas saltam dos nossos monumentos para certas ruas de Paris e de Pequim.
Assiste-se, num jardim botânico, a dois casamentos: uma chinesa e um luso-brasileiro, um ucraniano e uma portuguesa – genuínas Malas Amalgamadas por Afeição – redes que se aperfeiçoam, pescando-se em periferias de Amor Além Mátria.

No meu país azul é assim: mulheres e homens vertem o Mundo no coração uns dos outros
e há conversas de soalheiro que substituem comprimidos
; há pastores e varinas que dançam-colados todas as terças e domingos à tarde
e alguns, sem distinção de sexo, usam canivetes suíços, parabólicas indianas
e babydolls tailandeses
(enquanto, por lá, usam os nossos sapatos e se eriçam com o nosso néctar à Voz de Amália…)

O Equilíbrio – tu sabes – está em rota de colisão com o meu país
(embora nas noites mais frias eu tema ser por demasiado pouco tempo
: por ser essa a matriz; porém, prezado expatriado, a matriz permite-se mudar
de longe a longe
e pode muito bem começar aqui!)

Sim, o meu país azul ainda não é cabalmente feliz.
Mas o que importa é que no meu país todos se conhecem
para além das casas fechadas à chave
e das fachadas de palavras sem dono.
Aqui há Silêncios de peitos abertos, páginas inteiras e mãos grandes.
No meu país azul o ser-humano tenta ser Humano
e as almas acordam como claras manhãs sem chip a abrir novos caminhos.


Suzana Guimaraens

in paradox.sou

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Lançamento...


«Antes de me afastar demasiado de mim
apurei-nos, em toda a geistória, este momento
: as pétalas sacrificiais de Santa Teresinha, a água com sal para os pés.
Incensários volatilizam o verso sesquipedal
em heréticas viagens iconoclastas e cristalinos vómitos de alma&lama.
As fontes? A autobiografia de setenta e dois anjos, nove livros perdidos da Lemuria e da Atlântida, cem queimados da Alexandria e da Inquisição,
dez que ainda não se escreveram, doze que jamais saberei.»





Dia 21 de Novembro (domingo) pelas 17:20h

na Biblioteca Municipal de Gaia

lançamento do livro paradox.sou

de Suzana Guimaraens



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Referência Viva

: janelas patentes em transparências de caudal dourado
espontâneas como palavrões, entre as palavrinhas do dia-a-dia, de quem vive para o trabalho dias a fio.
Sem fio, na outra margem, algo nasce, renasce, nunca morre – escorre teimoso e inesgotável
[nunca igual] nas escadarias
ou nos improvisos de neblinas a horas fátuas de sol
(tão incompreensíveis para os poetas laboratoriais)
[sempre igual] nas façanhas e nos gestos límpidos e obstinados
que acreditarão sempre, sempre na bonomia
oculta pela aspereza da pedra azul
(afinal, humilde como o desabrochar das dálias).

De súbito, o tempo deixa de ser um conjunto de casas desalinhadas
– organizam-se proletários casarios, capelas, confrades, areais limpos, olhares que riem, um pôr-do-sol na transição para uma qualquer rua sem carros
[o tempo é um pincel orgânico em movimento]
afoito como o menino que brinca e cai ao poço e, desde então,
escuta do seu fundo, apenas para melhor auscultar os elementos
e uma certa Rosa que (sem dia-não) lhe ditam as tintas
directamente ao [centro].

Mas tem saudade-de-si, das suas próprias referências
: a bola de trapos, as sameiras, o peão e o carolo,
as cordas da roupa e as pias com plantas por cima e a
mãe a cantar;
agora, pinta-as com a mão direita
(a mesma destreza ao encestar com a esquerda)
e vai à escola, onde o escutam com olhos de ver
– o mesmo sol, a mesma vertigem
que regista, escrivã do espaço, tempos de África às Américas.

E dilatam-se-lhe as pupilas, para melhor o adentrarmos
rumo às memórias, até ao instinto.
Assim são as referências vivas, movidas a luz própria
sem época, desbravando a sua própria escuridão
; esta é Pai e é Filho da cidade, de um país
retrata-os intimamente, do ventre, com olhos de mundo
eles são a sua cama e a sua prole
esperma-óvulo concebido em ateliers a céu aberto
erários a cores por “dez réis de mel coado” – diáfanas incongruências que nos prometem a pincelada ad aeternum
aquela que nos embarca em perspicuidades reverenciais.

Na precariedade,
a desprendida emoção de ser criador à sua escala
: em directo, sem grafite e sem borracha
– o Milagre da Multiplicação do Amor


Suzana Guimaraens

domingo, 19 de setembro de 2010

korny-lethal-happy-ending in Jerusalem

(gritando para o minarete) Senhor, viu uma bomba passar por aqui? (falando) E o senhor padre, viu?... Alguém tem de a parar! Ela não tem culpa, foi ensinada a ser assim... “Esperar na rua – por que não?”, pergunta o senhor rabino? E viver de esmola é essa a sua sugestão? Se pressentisse uma bomba em casa, iria lá para fora, assim, sem hesitar? Os seus retratos, a sua Tora, talvez; mas a sua dignidade também é coisa a despejar? Eu sou viúva e tenho uma bebé e um pai doente em casa, senhores, e não tenho p’ra onde os levar. E não é terramoto, nem furacão; é apenas uma bomba que se pode desensinar. Haverá igreja, mesquita ou sinagoga que a consiga converter? (silêncio sepulcral) Senhores, vou para casa contar-lhes de uma bomba que se tornou pomba e dos nossos quatro corpos misturados a ascender…


Suzana Guimaraens

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Transpiras flores

Transpiras flores
nos vasos de minha casa

de asas voltas-te a nascente
sem rosa dos ventos
e aspiras inquieto à chuva dos meus olhos em botão

cristais sem arestas germinam
e [curvilínguo] plantas-te nas minhas persianas líquidas
como aquelas orquídeas que nascem no tronco das árvores


Suzana Guimaraens

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Passas

Passas pela vida das pessoas
– Húmus e chuva em ebulição
Erecção-semente, com uma ténue ponta de afeição –

Passas pela vida e pelas pessoas
Que, estou em crer, não terão bem a noção
Que lhes fecundas os utensílios
Que lhes fertilizas a inquietação
Que as fazes aceder ao formigão donde não podem regressar

Passas e não sei se se apercebem
Ou apenas o não querem admitir
Que lhes instalas o Desassossego
O adubas como um cego
E [assobiando]
Desvaneces-te a seguir.


Suzana Guimaraens

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

23:23 traducido para Castellano

De pie, jadeante, aparecí en la punta de la pasarela, perpendicular a la playa.

Me adentré, paulatinamente, en el arenal hasta las espumas y las estrellas exprimidas,

sin luz de luna a la vista.



En flash, evoqué cómo de niña (e incluso de adolescente),

durante el viaje de mañana en autocarro a la escuela,

me apetecía abrazar todo el paisaje que los ojos lograsen alcanzar

y me daba vergüenza que me leyesen los sentimientos en aquel mirar aéreo y excessivo.



Allá, en la pasarela, no fue mi pequeñez,

frente a la (in)finidad de aquel océano y firmamento,

lo que me rescató

: fueron las respiraciones completas [simultáneas] con todo lo que allí respiraba.

Inmiscuida y simbiótica respiraba.



Me reerigí

―Órgano de la Paz―

perpleja, diáfana, incomensurable,

mucho más allá de las vigas de madera que parecían sosternerme los pies.



Y debo de haber sido feliz, porque no tengo recuerdo de SER tan enteramente libre,

libre hasta de mí,

sobre todo cuando, súbitamente, comprendí que aquel

Silencio

de brisa en blandas olas nocturnas y aromas a flora de dunas primaverales

era, al cabo, tan importante y pleno de budeidad

como el trash-metal, tumba que dale toda la tarde, del vecino del primero.



Suzana Guimaraens


(Trad.: María Alonso Seisdedos)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Todos os dias são diferentes

Todos os dias são diferentes
Todos os dias são diferentes
Todos os dias são diferentes
Todos os dias são diferentes
Todos os dias são diferentes
Todos os dias são diferentes
Todos os dias são diferentes


Suzana Guimaraens

quinta-feira, 24 de junho de 2010

sábado, 5 de junho de 2010

"Mas não vais esquecer-te, pois não?" (voz da Joana)



















Não resisti: comprei-as ontem. Estão em minha casa, à espera. Agora
é meu desejo que sejam regadas a memória, a criatividade e a amor
(sim, porque não? A Amor...)


Apetece-me comer um ramo de violetas II Em casa, no quarto.

(Primavera. Fausta está grávida de seis meses e meio; Cassiel faz de conta que não.)

Fausta: – Já não me vês há 6 meses e meio. Não queres marcar um encontro?
Cassiel: – Sabes que o solário vai abrir no ginásio para a semana? (olhando-se ao espelho; aperta as calças)
Fausta: – Não é que eu ande sequer a contar os dias, mas… Podia ser um encontro no parque da Padeira. Têm estado uns dias tão soalheiros…
Cassiel: – Estou a perder massa muscular... (pausa enquanto mira os seus músculos ao espelho) O que a idade faz a um corpo!… Todo o cuidado é pouco, não achas? Sem darmos por isso ficamos massas informes.
Fausta: – Já viste como estão bonitas as violetas? Estão prenhes de cor! Abrem-me o apetite… (gesticula como se as pintasse, lentamente, com o dedo)
Cassiel: – Esta tatuagem precisa de ser corrigida… (veste a camisa, coloca a gravata, eficaz.) Estou bem, querida? (vira-se para ela, olhando para os seus próprios sapatos; vira-se novamente para o espelho e dá um retoque final na gravata) Hoje levo o Rolls. Ontem levou cera. (pega no jornal e abre-o; senta-se; lê) Logo jantamos indiano? Trago por volta das 20. Vais querer chá? (ela diz que não com a cabeça, roendo as unhas) E uma bela fatia de bebinca? (ela repete o gesto; ele dá-lhe um beijo na testa) Vá, não roas as unhas; ficam tão feias… E não quero esta cabecinha com minhoquices sobre flores, está bem? (olhando-a na testa) Sim?!
Fausta: – Ss…
Cassiel: – Boa! Linda menina. Amo-te.
Fausta: – Am…
Cassiel: – Às 20! E quero-te linda para nós. (sai com o jornal)
Fausta: – (já sozinha) Não! A mamã não está triste. A mamã está sempre bonita para o papá, não é? (pausa) O que é que vamos fazer hoje? Vamos ver fotografias do álbum da vóvó. (pausa) Sim, é a 25ª vez que vamos ver. (pausa) Sim, há espaços em branco: me-mó-rias do vu-vu, a-rran-ca-das pe-la vo-vó. (pausa) Pois, não faz mal: nós inventamos as fotos do vuvu, como sempre fizemos e fazemos de conta que o papá e as flores estão todos aqui connosco. (pausa) E depois vamos desenhar e pintar os dois, sim. (pausa) As violetas, sim … (pausa) Claro que o papá fica triste se sabe; temos de esconder os desenhos no sítio do costume. (pausa) Sim, onde o papá te fez. E as violetas viram tudo… Vi-o, vio-le, viole-tas! Vi-o, vio-le, viole-tas (muito rápido) Vi-o, vio-le, viole-tas! Vi-o, vio-le, viole-tas! Vi-o, vio-le, viole-tas! Vi-o, vio-le, … (tentando sanar-se; pega na cruz ao contrário) Pai Nosso que nos fugiste, porque nos deixaste aqui em casa tão sós, Cassiel é ficado o teu novo nome, e ainda não quiseste dar nome ao teu filho, à espera do dia… em que não seja… (começa a rezar para dentro palavras imperceptíveis) … Ámen!

No café.

Alcides: – (com uma mochila com livros, semi-aberta, a ler o jornal e a falar para Cassiel) Porque não a trazes ao café? É tão perto… É gravidez de risco?
Cassiel: – Que gravidez?! Aquilo? Não vê que é tudo psicológico…?! É aquela cabecinha. Passa a vida a desenhar e tem apetite de flores, veja bem! Reza pelos cantos… E anda sempre com uma cruz de cabeça para baixo agarrada a ela, ou ela à cruz, ainda nem percebi. Diga lá se isso não está fora de moda: beatices satânicas!... (pausa; desfolha o jornal) Pelo amor de Deus! Uma mulher de 32 anos!! Pode? Se estivesse aqui, punha-se a comer todas as cascas dos cariocas de limão, como se mais nada lhe coubesse no estômago. Já viu a minha vergonha? Às vezes levo-a a jantar fora, mas não posso levar amigos… Imagine a humilhação... Para ela, tadinha.
Márcia: – Claro!… Para ela, “tadinha”… Mas olhe que parece mesmo gravidez. E a julgar pelo tamanho do ventre, dava-lhe aí uns seis meses e meio… Ainda bem que não é. Filhos são sofrimento. Damos-lhes tudo enquanto temos forças e depois largam-nos com olhares de desprezo. Há dias em que lá se lembram, quando pensam que o mundo lhes fechou as portas, quando não há mais ninguém… E aí sim, voltam a ser meninos, perdem o orgulho, esquecem-se das vezes que nos mandaram foder. Lá tocam outra vez à campainha… Mas são só coisas que querem; não é um abraço, um ombro, um beijo bem dado na testa. Coisas! Sabe que o conforto tem o seu preço... Depois vão à vidinha deles e eu cá fico, vazia e seca outra vez. Não, não lhe faça filhos… A pobrezinha ia pirar!
Cassiel: – Ia pirar? (ri, cínico) E eu fazer-lhe filhos? Acha?
Márcia: – Sabe, o nascimento é como a morte. Para quem já assistiu às duas, é assim mesmo, sem tirar nem pôr. Se soubesse o que sei hoje, não tinha dado ao escuro os meus filhos. Lá em cima estariam melhor, talvez no nada...
Alcides: – Que “lá em cima”, mulher? Olhe, já assisti a centenas de nascimentos. Vi muitas crianças virem à luz. A morte é o destino, sim. Essa está omnipresente, mas é a vida que ganha a batalha naquela hora… Vai perdendo a guerra ao longo dos dias, dos meses, verdade. Curiosamente, o nascimento é a vitória mais efémera de todas, mas isso é apenas porque compete com a morte. A morte: a derradeira verdade. E isso é que é do caralho! Mas são muito diferentes… Morte e Nascimento. Garanto-lhe. A energia é outra…
Márcia: – Eu não acho… É a mesma entrega… Damos tudo numa e noutra. E para quê? Ainda não entendi… Há qualquer coisa que está a faltar nesta história...
Cassiel: – Bom, meus amigos, tive muito gosto, mas aqui há quem trabalhe, para que este país ande para a frente... Votos de um bom dia. Com licença. (levanta-se; vira-se para trás mesmo antes de sair) Alguém quer o jornal? Recebo-o em casa, leio metade na cama. Podem ficar com ele…
Márcia: – Pensei que na cama tinha a sua mulher não-grávida…
Alcides: – Eu posso ficar com ele. Agradeço. Há sempre algumas cromices que me atiçam o sentido de cidadania. É um bom mata-bicho.
Márcia: – É preciso estômago, isso sim. Olhe (para o empregado do café), faz favor, era uma baba de camelo!
(Márcia e Alcides saem)

Em casa, no quarto.

Fausta: – Sim, eu sei que és menino desde o primeiro dia. Se o papá te quisesse, era menina que escolhia. (pausa) Mas o papá nem tem tempo para pensar nestas coisas. (pausa) Olha, sabes o que eu acho? Nesta casa começa a haver muito poucas flores. Desaparecem assim que me apaixono. E custa-nos tanto respirar assim, não custa? (pega no vaso das violetas e senta-se, cheira-as, como se as inalasse, enfia-as no nariz, como se as fosse comer de uma vez só) Só sobraram estas. A culpa é toda nossa delas se extinguirem, não é? (pausa) Mas, está decidido: não iremos fazer-lhes mais mal. Desta vez vai ser diferente, bebé. Só que agora teremos de comer muito para nanar bem. Desta vez vamos nanar muito, muito para entrarmos no jardim da avó, e não precisaremos mais de papar as pobrezinhas. (pausa; faz festinhas às flores; levanta-se para ir buscar os comprimidos) Saem violetas vivinhas e recheadas para a mamã e para o bebé!! Para eles fecharem as pestanas como as pétalas, devagarinho, quando a luz desaparece… (senta-se de costas para o público, tira uma pétala e envolve nela um comprimido e come…)
No café.

(três meses depois; Márcia e Alcides sentam-se à mesa; roupas ou chapéus diferentes; pausa para se instalarem; Alcides abre o jornal)
Márcia: – Olhe, Alcides, sempre é verdade.
Alcides: – Claro que é, Márcia. Todos vamos morrer e “mai nada”.
Márcia: – Deixe-se de vaticínios. Quer futurologia? Leia os horóscopos dos seus jornais.
Alcides: – Diga lá a sua verdade, mulher! Vomite essa baba de camelo toda cá para fora.
Márcia: – Não se pode dizer que você tenha jeitinho p’ra lidar com vaginas, não senhor. (come uma colherada de baba de camelo)
Alcides: – A dama queira, então, fazer o obséquio de partilhar o que sabe, que eu sou todo olhos (a olhar para o jornal).
Márcia: – (de boca cheia de baba de camelo) Acredite ou não, nos seus jornais e nos seus livros não está tudo o que precisa saber…
Alcides: – Saber, saber, sei que agora preciso de um fino e de uns amendoins. Oh, Tony, faz favor… (para o empregado)
Márcia: – … Matou-se a nossa Fausta com o bebé.
Alcides: – Foda-se! (pára de ler o jornal; pausa) A culpa é do caralho do marido, esse, esse Dr. Cassiel. A que horas é que ele chega a casa? Queria dar-lhe umas palavrinhas…
Márcia: – Ele desapareceu, disse o Zé Maria Autoridades. Não sabem dele há três meses. Consta que desde aquele dia.
(Cassiel entra no café transfigurado, despenteado, sujo, com o casaco vestido ao contrário; como que a fugir de algo, tropeça, cai e fica aninhado no chão, enroscado)
Dada(acompanhando o discurso com gestos estranhos, entre o pueril e o louco; brinca com legos) Por que preferes enroscar-te sozinho em arame farpado?
Cassiel(com medo, a olhar para o chão, a abraçar-se) Há quem opte por carregar uma cruz ou pregar-se nela. Usar máscaras. Às vezes acompanhados, outras sozinhos… Tenho visto de tudo.
Alcides: – Olha-me este a falar sozinho… Márcia, parece que hoje temos circo!
Dada – Não passam de opções… Opções científicas. O que me confunde é por que te enroscas e crucificas tão bem, sem teres conseguido ainda avançar para o resgate.
Cassiel(continuando aninhado, mas a olhar para alguém) Eu preciso de enroscar-me em arame farpado. Há alturas em que não sei o que fazer e tenho de fazer qualquer coisa… Não tenho fome, tudo me enoja! A cabeça não pára, não param de entrar ideias de todo o tipo, pensamentos que se entranham… Fazer qualquer coisa para me esvaziar. E faço comigo. Não magoo ninguém. O que tem isso de perverso? Ou também é pecado? Tenho de sentir-me culpado também por isso? Eu sinto-me… Sinto-me culpado por isso. Sinto-me culpado por tudo. E tenho de fazer qualquer coisa. Na escola não me ensinaram outras letras, outros gestos, números alternativos. E eu sou um produto. Um produto que se sente culpado e que tem de fazer qualquer coisa e, então, enrosca-se em arame farpado.
Dada – E se fundisses a imagem do menino na manjedoura com o Cristo a elevar-se da cruz?
Cassiel(ri-se desalmadamente; silêncio prolongado e constrangedor; depois a olhar para Dada) O menino na quê?... E Cristo? Quem é esse tipo?
Márcia: – Oh, Alcides, acha que este tem retorno?
Alcides: – Com a química certa, vai ao sítio. Oh, Tony, chama o INEM, faz favor…
Márcia: – Espere, dê-lhe um desconto. Pode passar-lhe com um copo de água com açúcar ou uma baba de camelo.
Dada – Cristãos, hindus, budistas, judeus, todas as seitas, agnósticos, ateus, bla, bla, bla bla, bla, o que for, todos têm o direito de fazer a sua reinterpretação de Cristo e a continuar a Éeestória ou a Hiiistória. Ou não... (encolhe os ombros, como se não lhe interessasse.)
Cassiel – O que é a “Éeestória” ou a “Hiiistória”?
Fausta(aparece com as mãos no ventre) A história é o que nós quisermos, sempre que quisermos. O mundo interior. Esse onde pensamos, sentimos e sonhamos. Mesmo sem existir. Se sentires, o que importa se existes ou não? Se a “história reza” ou não “reza”? Se é da Carochinha ou compendiada na Luso-brasileira?
Cassiel – Aos 12 anos eu pensava nos judeus com quem os nazis fizeram sabão e chicotes em laboratório, nas câmaras de gás; nas portuguesas e nos portugueses que foram torturados durante a ditadura; na minha mãe comigo ao colo no autocarro, de Gaia a Braga, e nas fraldas não descartáveis, todos os dias úteis até, eu, naturalmente, deixar de usar fraldas… Rezava… Uma vizinha contou-me que a minha mãe rezava muito nessa altura. “O mundo está podre, meu querido filho! O mundo precisa de oração!”- dizia ela com todo o fervor. Rezava, rezava muito, toda ela trovão e carne. Morreu 4 meses depois de eu ter deixado as fraldas. Nunca me ensinou a rezar. Não tivemos tempo.
Alcides: – Olha, e ainda bem, meu rapaz. Ópio por ópio, o que tenho lá em casa, faz melhor a qualquer um.
Márcia: – Orar ajuda-me... Dar graças ao fim do dia, sei lá… A mim, ajuda. (vai buscar um copo de água com açúcar)
Dada – Todos Cristos. Até tu. Cristos que nem se lembram, nem aceitam ser filhos.
Cassiel – O que é Cristo? (como se tentasse evocar na sua memória)
Alcides: – Porra! E ele a dar-lhe! E se fosses fazer a catequese e me deixasses ler o jornal? Olha, já sei: come um catecismo. Enquanto comes, não falas. Que tal, han?
Márcia: – (faz Cassiel beber) Toma, bebe tudo! E o senhor cale-se! (para Alcides) Deixe lá o homem desabafar…
Fausta(a sorrir, como se soubesse mais do que o que conta) Sabes, o Zé das barbas dizia que tinha andado com Ele na escola e que lhe escarrava nas costas, sem Ele se aperceber. Depois dizem que se arrependeu muito e que, por isso, obrigou-se, com profundos remorsos, a ler revistas de jetseeet e a envolver-se em todos os escândalos dos faamous avulsos, a ver desfiles faaashion, filmes blockbuusters, as telenovelas que podia, a ir ao futebol (como uma questão de vida ou de morte), a ir às paarties todas e a ser alcoólico; tudo como penitência, para ser um cidadão alheado. Para não ter tempo de Ser. Para não ter tempo de impor a sua existência a ninguém. Porque Cristo, para ele, era poder e, assim sendo, não deveria ser incomodado… Era assim para o pobre Zé das barbas, que morreu a fazer a barba com uma navalha, às 5 da manhã no dia dos namorados. Usava um papillon daqueles cor-de-rosa às bolinhas brancas, que logo ficou todo escarlate escuro. É… Para ele Cristo era poder.
Dada – o Zé das barbas também foi um Cristo… Mas daqueles que nunca chegam a ressuscitar. Que nunca chegam às cadeiras altas, nem vão para além das nuvens, como os filhos que se prezam. Pena ele não ter descoberto a tempo que a cruz é um brinquedo e as asas também (dos que não se vêem colados a pessoas reais, mas que se sentem mais do que aqueles que se vêem); e também só brinca quem quer. Mas ele tinha razão, sabes? Cristo é poder. Poder individual que se partilha e se transforma em força suprema. Porque amor de irmão sente-se por aqui (aponta para o coração; pausa) Mas é tudo só a brincar.
Cassiel – Ainda não percebi quem é Cristo…
Alcides: – Ai, o caralho do homem! Caga na doutrina, fôda-se. Lê Artaud e bebe um fino e depois, se queres um conselho de amigo, interna-te o mais rápido possível.
Márcia: – Não é essa doutrina, doutor Alcides. Não compreende que esta ainda não veio nos livros? Lá porque leu todos os livros carbonizados da Biblioteca de Alexandria e da Inquisição e dos clássicos aos contemporâneos, não o autorizo a prescrever finos a torto e a direito, entendido?!
(Alcides encolhe os ombros e continua a ler o jornal)
Fausta – Cristos ressuscitados, humanos sacrossantos, anjos de carne e osso – podemos ser tudo – se nos aproximarmos o suficiente da nossa cruz, ao ponto de conseguirmos arrancar os pregos à nossa própria imagem crucificada. Depois é só curarmos as feridas com Aloé Vera de brincar (olhando para Dada e piscando-lhe o olho); serrarmos a cruz ao meio ou, de preferência, em vários pedaços; esquecermos, por momentos, o buraco de ozono (que consta estar a fechar) e fazermos uma imensa fogueira para iluminar uma Noite como esta…
Cassiel – Eu não quero ser Cristo. Ser Cristo é sofrer e levar escarradelas nas costas sem se saber e, depois, dá demasiado trabalho essa coisa da cruz…
Dada – Ser Cristo é ser filho da Mãe maior, do Pai maior, que não te exigem senão a tua liberdade, a tua identidade mais verdadeira, mais nua, mais luz, menos cruz: porém, condição negada pelo próprio ser-humano, reinventando a sua própria imagem sempre que lhe convém. Ou pensa que lhe convém. Entretanto, esqueceu-se de tudo, menos dos traumas auto-infligidos. Não percebeste ainda que já sofreste o que tinhas a sofrer? Que Cristo na cruz já foste, com espinhos, pregos, arame farpado e todas as chagas?
Cassiel – E será o suficiente…?
Fausta – Incrível! Continuas a escolher enroscar-te…
Cassiel – Nunca soube ser diferente. Nunca me ensinaram no orfanato. Nem a mim nem a esse Zé das barbas… Houve um tempo em que eu devia ter andado a anti-depressivos e a anti-psicóticos. Mas escolhi a cocaína. E sinto-me culpado. Não sei se não teria sido melhor também ter cortado a carótida, distraidamente, ao fazer a barba. Assim parava a cabeça, parava o resto. Mas depois sentir-me-ia ainda mais culpado. Acho eu… Agora nem navalha tenho. Agora não tenho onde dormir e não consigo deixar este arame. Eles dizem que é por causa da crise que estou como estou. Por estar desempregado. Por me vender para poder... Vocês sabem… Mas eu acho que é por estar sozinho, depois de ter ignorado e rejeitado as coisas mais simples e mais complexas ao mesmo tempo e, no entanto, tão ao meu alcance… Fi-lo tantas vezes, que perdi a conta. Tudo porque nunca me ensinaram, em criança, a viver sem este arame, ou esta cruz, para mim é igual… A culpa é deles. Antes de ser minha, a culpa é deles.
Dada – Não. Não há culpas. Há esquecimento. Desaprendeste o brincar, o riso, o falar com as estrelas, o dar graças, como a tua mãe. Esqueceste-te de ser filho amado incondicionalmente, mesmo sem massa muscular. Tudo o que vos redimiria, a ti e a eles. Agora estás perdido numa enorme casa conspurcada por todos, por ti próprio. E tu até vês que continuam a envenenar-lhe os cantos todos os dias e ninguém pára. É por isso que não consegues comer, enquanto vês o veneno à tua volta a espumar. Talvez estejas um passo à frente deles, mas só um… E estás assim, porque os teus fantasmas vieram ao de cima e é o que vês todos os dias, mesmo sem te olhares ao espelho, porque já nem espelho tens.
Fausta – Estás assim porque sabes que os espelhos andam a iludir todos os imprudentes que mastigam e deglutem, entre o veneno, o próprio veneno. E já nem precisas do espelho. Estás assim porque tudo aquilo em que acreditavas está a desabar. Porque acordas cansado de ser como és e queres mudar, mas não sabes como.
Cassiel – Não, não sei mudar. Sozinho não…
Fausta – Vá… Larga o arame. Vai doer um pouco, mas já o suportas há tanto tempo, que nem vais notar. É uma dor que resgata e logo sara. Depois ensino-te a rezar sem pieguices. Mas substituis o sinal da cruz pelo sinal do coração. Assim… (faz o gesto de um coração com ambas as mãos) Em nome do Pai, do Filho, que também sou Eu, e da Eterna Mãe, Ámen! Vamos lá…
(Dada e Fausta repetem fazendo o gesto) Em nome do Pai, do Filho, que também sou Eu, e da Eterna Mãe, Ámen!
Cassiel – Tenho medo... (Fausta tenta tirar o arame invisível; ele ajoelhado) NÃAAO! Dói demais!... Não consigo… Vou estalar pelas fístulas! (cai prostrado no chão, respirando, sôfrega e descontroladamente) Convulsões!… Terramotos … (rebola e estremece) Tsunamis… Esvaio-me… (pausa) Sinto o meu coração a bater tão rápido! Cada batida aproxima-me mais da morte, eu sei, eu sei, eu sei…! (a falar cada vez mais baixo e escondendo a cabeça entre as mãos e braços)
Dada – Porém, faz-te mais vivo do que nunca.
Cassiel – Deixo-me ir… Deixo-me ir… (Cassiel parece que morre; Fausta tira devagar o arame invisível e deixa-o cair no chão; pausa; imobilidade total de Cassiel) Mais vivo do que nunca? (começa a arfar)
Fausta – Meu querido filho, até de respirar te esqueceste … Vá, comigo!… (Cassiel fica sentado de pernas meio abertas, trôpego) Inspira profundamente… Expira o dobro do tempo… Isso, faz essa peçonha sair … Outra vez, de costas direitas (Cassiel endireita as costas)……. Outra....... Isso!
Cassiel(mais calmo) Mas será que ainda existo? (de olhos fechados; Fausta ri) E Ele… Existiu?
Fausta – Não sei dizer-te. Talvez ninguém saiba, ao certo. Muitos acreditam, cegamente, que sim, outros afirmam e fundamentam, vigorosamente, que não. Outros, ainda, nem querem saber. Ninguém sabe, de facto. Contudo, agora falamos dele. Estranho, não é? Nem a Bíblia nem a Scientific American podem esclarecer-nos. (sorri e muda de posição; fica de costas) Mas, diz-me: não sentes nada? Tendo Ele existido ou não? Talvez a Bíblia tenha mentido desde sempre, talvez seja tudo verdade, talvez apenas metade, ou nem isso, mas não sentes nada? (perfila-se e acaricia o seu ventre)
Cassiel – Sem certezas, o que fazemos aqui? O que acrescentamos aqui para além da palavra escrita, falada e disto que somos? Há um vazio, um buraco negro aqui dentro…
Alcides: – Lítio, meu caro, é o que te faz falta, lítio e não deve ser pouco.
Dada – A carne, o papel, a palavra são a ilusão. Tu existes para além… disto.
Cassiel – Se é que existo, o que sou?
Alcides: – Bem, visto de que galáxia? No período de quantos séculos? Nada, meu caralho, és rigorosamente igual a nada. Ninguém se vai lembrar de ti daqui sequer a 10 anos.
Fausta – És tudo o que sentes, o que anseias, o que tens dentro, mesmo distraído da tua origem.
Dada – Olha à tua volta. Tudo, Todos te absorvem.
Fausta – És um corpo emprestado. Um alento em continuado movimento. Não estagnes na dor. Recorda-te quem és.
(silêncio e imobilidade total; até Dada)
Cassiel(levanta-se muito lentamente; braços abertos tentando manter o equilíbrio, mas também evocando Cristo crucificado; sorri, finalmente, de pé) Apetece-me… Apetece-me comer um ramo de violetas… (ri) A voar. (ri enquanto olha para Cima; Fausta e Dada misturam-se entre o público, mas ele não se apercebe; pensa falar para eles) Escutem-me bem: tenho fome de flores, sede de ser asa, sou o vale onde arde a cruz que outrora fui, onde se encarquilha e derrete o arame farpado que foi a minha casa, sou um cálice que transborda centelhas soltas de Sol, sou o antídoto de mim, … (olha à volta e vê que ambos, Dada e Fausta, desapareceram; breve silêncio de constatação – compreende que Fausta e Dada fazem parte de si mesmo – baixa a cabeça, acenando que sim com a cabeça)
Alcides: – Ai, que vou chorar!... (snifa, cinicamente)
Márcia: – Experimente só escutar, mesmo que não compreenda, pode ser?
Cassiel(reergue a cabeça) Escuta-te bem: és o teu fim e o teu princípio: morreste. Agora és menos corpo e mais consciência. Agora tudo está mais perto. (pausa)
Em nome do Pai, do Filho, que também sou Eu, que também sou Eu, que sou Eu, também, e da Eterna Mãe… Assim já é.
(Márcia faz o gesto com ele, sentada: sinal do coração com ambas as mãos, que no fim do gesto ficam unidas, palma com palma, junto ao xifoíde; Cassiel baixa a cabeça, em reverência a si mesmo, levanta a cabeça; olha para - quase - todos, enfrentando o público nos olhos, muito sério, não ameaçador; expectante, senta-se à mesa do café com Márcia e Alcides, olha para ambos esperando ser reconhecido)
Márcia: – Está em paz, não está, Dr. Cassiel?
Cassiel: – (acena afirmativamente) “Sou um alento em continuado movimento”…
Alcides: – Pelo menos enquanto actuar o que lhe puseste na água.
Márcia: – Era apenas água, nem açúcar tinha.
Cassiel: – Vai uma violeta? (tirando uma do bolso, meio murcha, que inala intensamente)
Alcides: – Vai é… (tira um cigarro do maço) disto! (pega no jornal e vai-se embora, deixando para trás a mochila)
Márcia: – (de cotovelos na mesa e mãos apoiadas no queixo; ar inquisidor, observando Cassiel) Pois é, pois é… Fez-lhe bem esse encontro com a extinção, sim senhor… (pausa; sem tirar os olhos de Cassiel) Oh, Tony, são duas saladas de fruta, faz favor!
Cassiel: – Não me leve a mal, mas há muito para fazer no parque, nos canteiros por aí. É preciso regar as flores…

À saída do café. (ao sair, entra Alcides; Cassiel e Alcides cruzam-se e olham-se)

Cassiel: – Esqueceu-se dos livros lá dentro…
Alcides: – Não, não esqueci. Aqueles já os tenho aqui… (aponta para a cabeça) Agora são para eles.
Cassiel: – Ah… Memória prodigiosa! (pausa) Eu esqueci-me de marcar um encontro, já lá vão uns meses… (Fausta aproxima-se e quase que lhe toca na nuca; ele sente, inclinando a cabeça, como que adormecendo na mão dela; pausa; ele desperta) Bom, agora há flores para regar! (sorrindo e expectante, percebendo que Alcides regressou para falar com ele)
Alcides: – (chegando-se mais a Cassiel e em tom de confidência) Não conte isto a ninguém… Mas… (hesitante) é que eu tenho um certo… dom com as plantas. Além disso, sei onde há água abundante e com a temperatura exacta. Sabia que uma violeta com boas condições irá florir por nove meses, e irá ” descansar” depois mais três meses? (pisca o olho) Interessante, não é? Elas terem um intervalo de florescimento… Mas não se esquecem do que são, han?

(Cassiel dá passagem a Alcides e saem juntos, enquanto este último continua a falar; a fala de Alcides vai-se desvanecendo à medida que ambos se afastam; Márcia começa a dançar kizomba de braços abertos e olhos fechados.)

Suzana Guimaraens

quinta-feira, 6 de maio de 2010


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