Tenho um postal fantasma em cima do alçado de veludo da minha cama
com a estátua de Santa Teresa de Gian Lorenzo Bernini
: nevoeiro marmóreo em convulsões
entreabertos lábios trementes.
Aspiro àquele olhar para dentro, todo trovão e carne
àquele arfar planando sobre capas de revistas
– garganta-galeria de saliva e ar que se engolem, condizentes.
Rodopio vertical ao som da combustão de hábito e touca
tecidos de mim.
Por extrema forma de contágio e da inércia
– ex-hipoxe –
metamorfoseio-me em, exactamente, sete centiliões de traças ascendentes
em forma de olhos brancos – sibilas sem íris –
[por compreenderem]
o quão mais arcaico do que estátuas do século XVII
é sentirmo-nos assim sós
; tão mais que tudo pode reconfigurar-se num único golpe de cinzel
(sem piscar de olhos) e, na próxima vez que nos usurpar o espelho,
já o Diabo nos faz companhia
(a esfregar um olho) e somos Deus e a remela do Diabo e o seu enorme olho preto
disforme e oprimido
(suspeito que, também ele, confuso e insatisfeito
; ainda assim, susceptível de êxtase a qualquer momento).
Há um ponteiro de penetrar dupla e simultaneamente
o olho de Deus e o olho de Diabo
(como uma Santa de postal.)
Há um escultor em nós
de possuí-los a ambos
em uníssono
pelo Silêncio do xifóide incorpóreo.
E são tão menos de um segundo
“a Casa do Mundo” e a do não-Mundo
: Morte e Vida num sopro
eterno retorno num só Corpo.
Suzana Guimaraens
1 coisários:
O tempo a permitir que a metamorfose se opere em nós...
Gostei do poema.
Beijos.
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