domingo, 23 de janeiro de 2011

Posso?




fotografia de Carlos Silva



– Posso? É aqui o planeta Natal?
Senhoras, senhores… Arrumadores, doutores, da ponta dos meus alvos bigodes (de duas vidas e nove semanas e meia)
desejo que o vosso dia flua como um re-gato que se diverte por entre os óbices!
Bom, na verdade, não era bem isto que eu queria miar…
: está um bulldog francês sentado ao fundo do corredor, mesmo em cima da minha cama e um rei-noceronte em saltos altos, aos pulos que nem uma besta, em cima da mesa da sala, e logo agora: hora da sesta.

E sinto-me abstrato, como se não fosse um gato, nesta conjuntura surreal
; talvez seja uma questão química e cultural, mas estais a ver um gato no palco, a carecer de desabafo? Nem eu. E uma gata de gravata a fazer do seu gato
gato-sapato?
Até parece mentira, porque ainda ontem, passei por um gato cego
que me leu as palmas e me agoirou um futuro cada vez mais feliz, mas estava demasiado entretido a rilhar um osso de baleia para me dar conselhos; a sua esposa yuppie miava-lhe o jornal por entre rabugentas entrelinhas,
qual Xantipa, como se eu não estivesse ali e não hesitei outro telhado.

Dizem-me falhado, gato errático, operático, ensimesmado, questionador sistemático que se insubordina ao poder:
“porque se der trabalho, é pr’arder!”, mas não é nada disso, enfim…
Tenho a certeza do perfeito caos das ideias que me imaginam
; da realidade que encenais todos os dias, nem tanto assim.

Não almejo oportunidades para entrar nos vossos cenários precários
– sou snob e fofo o suficiente para ser eu a Oportunidade
e até rasgaria com empenho a cortina, se isso vos descortinasse a Verdade
(ainda que em pedaços) e áspero, todo língua, lamber-vos-ia os tarsos.
Porém (muita atenção!) jamais seria dama de companhia,
vigia de gatatónicos – dos retratistas, aos radiofónicos – com azia,
entupidos em cagaços: Não!
Sei, portanto, que irei sempre estancar o medo que inventais
– estrangulá-lo, como fizeram aos meus pais e aos meus irmãos –
todavia, só até que o medo tenha medo das minhas mãos... sim: Mãos!
E não quero ter a esperança pela estima de um dono: dá-me sono, tédio genuíno esse assédio do apego.

Sim, prego a minha religião sem legião; é, sei lá, uma vocação
: ser todo Atitude, peregrino da virtude, gatinhar assim pela sim-dade
enquanto os não-rrrrmais pensam dormir, seduzir a Lua (sobretudo a Nova, porque não preciso de a ver para a sentir) e deduzo, a partir de hoje, miar diariamente às vossas antenas como nunca antes se ouviu
: sonhai e criai todos, saí do marasmo, fazei da vossa vida um orgasmo, fartura em todo o lado, abundância em leitinho, “uh-ah-zubi-zaba-nobi”
(oh, que alegre fado!) e, vá, votai no gatinho… Miu?


Suzana Guimaraens

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