segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

SPOKEN WORD

A poesia
a poesia
a poesia
é - pergunto - esse sacolejar de asas transparentes
de inconscientes e possessos anjos?
A poesia – pergunto – a poesia
é esse alar de cinza terrestre em embrião celeste?
A ascensão das fezes e da urina em verso livre ou em rima?
Sumo pontífice, Hierofante
a Metáfora Insondável, o Indescobrível?
Ou o Vómito, deusa em mim?

O corpo pede
(poesia)
mas o mundo fede e a lama bruta invade
e talvez nunca se chegue a saber como se mede
– a poeira e a cinza, sim –
mas [nunca a poesia] e isto que agora somos
: porque já não é tão fácil encontrar trilhos
porque entretanto o preto acinzentou
porque já não há fascistas nem revolução
só os carreiristas, os liberais capitalistas
os compulsivo-consumistas e a podridão dos excedentes
o contrabando legal de estupefacientes e os recipientes ambulantes
; depois há os laptops e os PDAs e os iPods e os iPhones
e os SmartPhones e os BlackBerries
o Skype, a Wikipedia e o Photoshop
o facebook e o bodybook, as webcams e os webcums
os nano-tubos carbónicos e o plasma e as casas inteligentes
os quotidianos frenéticos e os carros eléctricos (“ai, não tem!?... mas, olhe que devia!”)
as relações pragmáticas e as seitas idiossincráticas
as fátimas dogmáticas, as fátimas cépticas e as fátimas… relativas
(“Valha-me Nossa Senhora de Fátima!”)

– “a questão é” quando compreenderei o Outro
com ou sem estilo, terapia ou High Tech.
E é normal que, entretanto, os silêncios, as fomes e as prisões permaneçam
e que os jornais se continuem a enfardar como a bíblia-sem-Saramago
com os filmes e as novelas e as séries e as revistas e os desfiles e os jogos
e os jogos e os desfiles e as revistas e as séries e as novelas e os filmes
até que um diabo de ligas te possua e tu adormeças que nem um anjo.

É: a tua alma cede, mas o teu espírito pede
(sem saberes, mas pede)
poesia e justiça
– o fio de lã e o labirinto –
a justiça, todavia, perdeu-se algures fora do labirinto
porque era um travesti zarolho e confuso
e a poesia e a poesia e a poesia não aparece nem faz nada
a poesia apenas é a poesia e anda por aí e não pede para ser mais nada
nem te pede rigorosamente nada
: para acreditar ou votar ou algemar ou imolar ou casar ou explodir
nem sequer para rimar
; apenas o rigor intuitivo-intuitivo-intuitivo da criação além prosa
e o amor pelo que crias
e a libertação do que crias
e seres a Santíssima Trindade na polpa dos dedos.
(respira)


Sabes que não pões pão na boca de ninguém
nem na tua
mas és a mãe, és o pai e és a cria
e és livre, até de ti
; não sabes como, nem entendes
nem interessa, mas és
e, quando és,
a rosácea estremece
a mão obedece
e é aí que desce

a Poesia?


Suzana Guimaraens

1 comentário:

sindro disse...

oi visite o meu blog de textos, beijos, até mais.


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