quarta-feira, 24 de novembro de 2010

NO MEU PAÍS AZUL

No meu país azul a bandeira é multicolor e Ama-se o Musgo das Aldeias.
Nele coexistem cidades etéreas e vilas ascensas
; nos telhados há graffitis pintados por crianças de vestes talares
rosas e cravinas a nascer das antenas.

Neste país reaprende-se a respirar todos os dias
e relembra-se a ambivalência do volfrâmio.
Aqui há pais e filhas que alvorecem por cima de aviões
coisas que luzem aos pares – amarelas e vermelhas –
camiões atestados de cerejas e beijos
autocarros com velhinhos que cantam com lábios em arco para cima
[compreendem a sua jamais-extinção]
e flores silvestres que se abrem a astros que ainda não sabemos.

Não obstante, de incertas zonas de sombra, escutam-se tilintares perdidos,
estranhas cacofonias metaloformes, obscenas estridências.
Passam obscuros pombos correio que entregam mensagens transgénicas
(quase sempre fora de prazo)
e em cada divisão entorpecida das casas por onde passam, há caixas com histórias dentro de histórias que nunca acabam; comandos telecomandados por bonecos com assentos e bizarros hobbies
homens que só metem a barriga para dentro para a fotografia
e infecções que os assomam pelos excessos.
Sim, do outro lado entrincheiram-se.

E perdoa não ser anacreôntica, nem esquecer Siracusa
; por não te ofertar épicos finais felizes de mão beijada ou dulcificantes cantos
por não te narcotizar a almofada envolta em flanela
por nunca te ceder a minha Paz.

Contudo, é aqui que eu escolhi [ser]
: neste país azul onde, em todas as direcções,
alam arados sem fios e anacrónicas caravelas de recreio
onde se assam esquilhas no ponto e intrépidas sardinhas saltam dos nossos monumentos para certas ruas de Paris e de Pequim.
Assiste-se, num jardim botânico, a dois casamentos: uma chinesa e um luso-brasileiro, um ucraniano e uma portuguesa – genuínas Malas Amalgamadas por Afeição – redes que se aperfeiçoam, pescando-se em periferias de Amor Além Mátria.

No meu país azul é assim: mulheres e homens vertem o Mundo no coração uns dos outros
e há conversas de soalheiro que substituem comprimidos
; há pastores e varinas que dançam-colados todas as terças e domingos à tarde
e alguns, sem distinção de sexo, usam canivetes suíços, parabólicas indianas
e babydolls tailandeses
(enquanto, por lá, usam os nossos sapatos e se eriçam com o nosso néctar à Voz de Amália…)

O Equilíbrio – tu sabes – está em rota de colisão com o meu país
(embora nas noites mais frias eu tema ser por demasiado pouco tempo
: por ser essa a matriz; porém, prezado expatriado, a matriz permite-se mudar
de longe a longe
e pode muito bem começar aqui!)

Sim, o meu país azul ainda não é cabalmente feliz.
Mas o que importa é que no meu país todos se conhecem
para além das casas fechadas à chave
e das fachadas de palavras sem dono.
Aqui há Silêncios de peitos abertos, páginas inteiras e mãos grandes.
No meu país azul o ser-humano tenta ser Humano
e as almas acordam como claras manhãs sem chip a abrir novos caminhos.


Suzana Guimaraens

in paradox.sou

2 comentários:

Graça Pires disse...

"No meu país azul é assim: mulheres e homens vertem o Mundo no coração uns dos outros"
Um poema de fôlego e cheio de sentimento e lucidez...Gostei mesmo.
Beijos

Alma disse...

Já me disseram que podia ir presa por essa lucidez - em pleno século XXI! Seria o máximo... :o)
Depois iria lá o Hugo Cruz fazer Teatro do Oprimido com as reclusas e eu no céu, em vez da cadeia :D

Bem-haja, Graça!

Beij*


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