sábado, 5 de junho de 2010

"Mas não vais esquecer-te, pois não?" (voz da Joana)



















Não resisti: comprei-as ontem. Estão em minha casa, à espera. Agora
é meu desejo que sejam regadas a memória, a criatividade e a amor
(sim, porque não? A Amor...)


Apetece-me comer um ramo de violetas II Em casa, no quarto.

(Primavera. Fausta está grávida de seis meses e meio; Cassiel faz de conta que não.)

Fausta: – Já não me vês há 6 meses e meio. Não queres marcar um encontro?
Cassiel: – Sabes que o solário vai abrir no ginásio para a semana? (olhando-se ao espelho; aperta as calças)
Fausta: – Não é que eu ande sequer a contar os dias, mas… Podia ser um encontro no parque da Padeira. Têm estado uns dias tão soalheiros…
Cassiel: – Estou a perder massa muscular... (pausa enquanto mira os seus músculos ao espelho) O que a idade faz a um corpo!… Todo o cuidado é pouco, não achas? Sem darmos por isso ficamos massas informes.
Fausta: – Já viste como estão bonitas as violetas? Estão prenhes de cor! Abrem-me o apetite… (gesticula como se as pintasse, lentamente, com o dedo)
Cassiel: – Esta tatuagem precisa de ser corrigida… (veste a camisa, coloca a gravata, eficaz.) Estou bem, querida? (vira-se para ela, olhando para os seus próprios sapatos; vira-se novamente para o espelho e dá um retoque final na gravata) Hoje levo o Rolls. Ontem levou cera. (pega no jornal e abre-o; senta-se; lê) Logo jantamos indiano? Trago por volta das 20. Vais querer chá? (ela diz que não com a cabeça, roendo as unhas) E uma bela fatia de bebinca? (ela repete o gesto; ele dá-lhe um beijo na testa) Vá, não roas as unhas; ficam tão feias… E não quero esta cabecinha com minhoquices sobre flores, está bem? (olhando-a na testa) Sim?!
Fausta: – Ss…
Cassiel: – Boa! Linda menina. Amo-te.
Fausta: – Am…
Cassiel: – Às 20! E quero-te linda para nós. (sai com o jornal)
Fausta: – (já sozinha) Não! A mamã não está triste. A mamã está sempre bonita para o papá, não é? (pausa) O que é que vamos fazer hoje? Vamos ver fotografias do álbum da vóvó. (pausa) Sim, é a 25ª vez que vamos ver. (pausa) Sim, há espaços em branco: me-mó-rias do vu-vu, a-rran-ca-das pe-la vo-vó. (pausa) Pois, não faz mal: nós inventamos as fotos do vuvu, como sempre fizemos e fazemos de conta que o papá e as flores estão todos aqui connosco. (pausa) E depois vamos desenhar e pintar os dois, sim. (pausa) As violetas, sim … (pausa) Claro que o papá fica triste se sabe; temos de esconder os desenhos no sítio do costume. (pausa) Sim, onde o papá te fez. E as violetas viram tudo… Vi-o, vio-le, viole-tas! Vi-o, vio-le, viole-tas (muito rápido) Vi-o, vio-le, viole-tas! Vi-o, vio-le, viole-tas! Vi-o, vio-le, viole-tas! Vi-o, vio-le, … (tentando sanar-se; pega na cruz ao contrário) Pai Nosso que nos fugiste, porque nos deixaste aqui em casa tão sós, Cassiel é ficado o teu novo nome, e ainda não quiseste dar nome ao teu filho, à espera do dia… em que não seja… (começa a rezar para dentro palavras imperceptíveis) … Ámen!

No café.

Alcides: – (com uma mochila com livros, semi-aberta, a ler o jornal e a falar para Cassiel) Porque não a trazes ao café? É tão perto… É gravidez de risco?
Cassiel: – Que gravidez?! Aquilo? Não vê que é tudo psicológico…?! É aquela cabecinha. Passa a vida a desenhar e tem apetite de flores, veja bem! Reza pelos cantos… E anda sempre com uma cruz de cabeça para baixo agarrada a ela, ou ela à cruz, ainda nem percebi. Diga lá se isso não está fora de moda: beatices satânicas!... (pausa; desfolha o jornal) Pelo amor de Deus! Uma mulher de 32 anos!! Pode? Se estivesse aqui, punha-se a comer todas as cascas dos cariocas de limão, como se mais nada lhe coubesse no estômago. Já viu a minha vergonha? Às vezes levo-a a jantar fora, mas não posso levar amigos… Imagine a humilhação... Para ela, tadinha.
Márcia: – Claro!… Para ela, “tadinha”… Mas olhe que parece mesmo gravidez. E a julgar pelo tamanho do ventre, dava-lhe aí uns seis meses e meio… Ainda bem que não é. Filhos são sofrimento. Damos-lhes tudo enquanto temos forças e depois largam-nos com olhares de desprezo. Há dias em que lá se lembram, quando pensam que o mundo lhes fechou as portas, quando não há mais ninguém… E aí sim, voltam a ser meninos, perdem o orgulho, esquecem-se das vezes que nos mandaram foder. Lá tocam outra vez à campainha… Mas são só coisas que querem; não é um abraço, um ombro, um beijo bem dado na testa. Coisas! Sabe que o conforto tem o seu preço... Depois vão à vidinha deles e eu cá fico, vazia e seca outra vez. Não, não lhe faça filhos… A pobrezinha ia pirar!
Cassiel: – Ia pirar? (ri, cínico) E eu fazer-lhe filhos? Acha?
Márcia: – Sabe, o nascimento é como a morte. Para quem já assistiu às duas, é assim mesmo, sem tirar nem pôr. Se soubesse o que sei hoje, não tinha dado ao escuro os meus filhos. Lá em cima estariam melhor, talvez no nada...
Alcides: – Que “lá em cima”, mulher? Olhe, já assisti a centenas de nascimentos. Vi muitas crianças virem à luz. A morte é o destino, sim. Essa está omnipresente, mas é a vida que ganha a batalha naquela hora… Vai perdendo a guerra ao longo dos dias, dos meses, verdade. Curiosamente, o nascimento é a vitória mais efémera de todas, mas isso é apenas porque compete com a morte. A morte: a derradeira verdade. E isso é que é do caralho! Mas são muito diferentes… Morte e Nascimento. Garanto-lhe. A energia é outra…
Márcia: – Eu não acho… É a mesma entrega… Damos tudo numa e noutra. E para quê? Ainda não entendi… Há qualquer coisa que está a faltar nesta história...
Cassiel: – Bom, meus amigos, tive muito gosto, mas aqui há quem trabalhe, para que este país ande para a frente... Votos de um bom dia. Com licença. (levanta-se; vira-se para trás mesmo antes de sair) Alguém quer o jornal? Recebo-o em casa, leio metade na cama. Podem ficar com ele…
Márcia: – Pensei que na cama tinha a sua mulher não-grávida…
Alcides: – Eu posso ficar com ele. Agradeço. Há sempre algumas cromices que me atiçam o sentido de cidadania. É um bom mata-bicho.
Márcia: – É preciso estômago, isso sim. Olhe (para o empregado do café), faz favor, era uma baba de camelo!
(Márcia e Alcides saem)

Em casa, no quarto.

Fausta: – Sim, eu sei que és menino desde o primeiro dia. Se o papá te quisesse, era menina que escolhia. (pausa) Mas o papá nem tem tempo para pensar nestas coisas. (pausa) Olha, sabes o que eu acho? Nesta casa começa a haver muito poucas flores. Desaparecem assim que me apaixono. E custa-nos tanto respirar assim, não custa? (pega no vaso das violetas e senta-se, cheira-as, como se as inalasse, enfia-as no nariz, como se as fosse comer de uma vez só) Só sobraram estas. A culpa é toda nossa delas se extinguirem, não é? (pausa) Mas, está decidido: não iremos fazer-lhes mais mal. Desta vez vai ser diferente, bebé. Só que agora teremos de comer muito para nanar bem. Desta vez vamos nanar muito, muito para entrarmos no jardim da avó, e não precisaremos mais de papar as pobrezinhas. (pausa; faz festinhas às flores; levanta-se para ir buscar os comprimidos) Saem violetas vivinhas e recheadas para a mamã e para o bebé!! Para eles fecharem as pestanas como as pétalas, devagarinho, quando a luz desaparece… (senta-se de costas para o público, tira uma pétala e envolve nela um comprimido e come…)
No café.

(três meses depois; Márcia e Alcides sentam-se à mesa; roupas ou chapéus diferentes; pausa para se instalarem; Alcides abre o jornal)
Márcia: – Olhe, Alcides, sempre é verdade.
Alcides: – Claro que é, Márcia. Todos vamos morrer e “mai nada”.
Márcia: – Deixe-se de vaticínios. Quer futurologia? Leia os horóscopos dos seus jornais.
Alcides: – Diga lá a sua verdade, mulher! Vomite essa baba de camelo toda cá para fora.
Márcia: – Não se pode dizer que você tenha jeitinho p’ra lidar com vaginas, não senhor. (come uma colherada de baba de camelo)
Alcides: – A dama queira, então, fazer o obséquio de partilhar o que sabe, que eu sou todo olhos (a olhar para o jornal).
Márcia: – (de boca cheia de baba de camelo) Acredite ou não, nos seus jornais e nos seus livros não está tudo o que precisa saber…
Alcides: – Saber, saber, sei que agora preciso de um fino e de uns amendoins. Oh, Tony, faz favor… (para o empregado)
Márcia: – … Matou-se a nossa Fausta com o bebé.
Alcides: – Foda-se! (pára de ler o jornal; pausa) A culpa é do caralho do marido, esse, esse Dr. Cassiel. A que horas é que ele chega a casa? Queria dar-lhe umas palavrinhas…
Márcia: – Ele desapareceu, disse o Zé Maria Autoridades. Não sabem dele há três meses. Consta que desde aquele dia.
(Cassiel entra no café transfigurado, despenteado, sujo, com o casaco vestido ao contrário; como que a fugir de algo, tropeça, cai e fica aninhado no chão, enroscado)
Dada(acompanhando o discurso com gestos estranhos, entre o pueril e o louco; brinca com legos) Por que preferes enroscar-te sozinho em arame farpado?
Cassiel(com medo, a olhar para o chão, a abraçar-se) Há quem opte por carregar uma cruz ou pregar-se nela. Usar máscaras. Às vezes acompanhados, outras sozinhos… Tenho visto de tudo.
Alcides: – Olha-me este a falar sozinho… Márcia, parece que hoje temos circo!
Dada – Não passam de opções… Opções científicas. O que me confunde é por que te enroscas e crucificas tão bem, sem teres conseguido ainda avançar para o resgate.
Cassiel(continuando aninhado, mas a olhar para alguém) Eu preciso de enroscar-me em arame farpado. Há alturas em que não sei o que fazer e tenho de fazer qualquer coisa… Não tenho fome, tudo me enoja! A cabeça não pára, não param de entrar ideias de todo o tipo, pensamentos que se entranham… Fazer qualquer coisa para me esvaziar. E faço comigo. Não magoo ninguém. O que tem isso de perverso? Ou também é pecado? Tenho de sentir-me culpado também por isso? Eu sinto-me… Sinto-me culpado por isso. Sinto-me culpado por tudo. E tenho de fazer qualquer coisa. Na escola não me ensinaram outras letras, outros gestos, números alternativos. E eu sou um produto. Um produto que se sente culpado e que tem de fazer qualquer coisa e, então, enrosca-se em arame farpado.
Dada – E se fundisses a imagem do menino na manjedoura com o Cristo a elevar-se da cruz?
Cassiel(ri-se desalmadamente; silêncio prolongado e constrangedor; depois a olhar para Dada) O menino na quê?... E Cristo? Quem é esse tipo?
Márcia: – Oh, Alcides, acha que este tem retorno?
Alcides: – Com a química certa, vai ao sítio. Oh, Tony, chama o INEM, faz favor…
Márcia: – Espere, dê-lhe um desconto. Pode passar-lhe com um copo de água com açúcar ou uma baba de camelo.
Dada – Cristãos, hindus, budistas, judeus, todas as seitas, agnósticos, ateus, bla, bla, bla bla, bla, o que for, todos têm o direito de fazer a sua reinterpretação de Cristo e a continuar a Éeestória ou a Hiiistória. Ou não... (encolhe os ombros, como se não lhe interessasse.)
Cassiel – O que é a “Éeestória” ou a “Hiiistória”?
Fausta(aparece com as mãos no ventre) A história é o que nós quisermos, sempre que quisermos. O mundo interior. Esse onde pensamos, sentimos e sonhamos. Mesmo sem existir. Se sentires, o que importa se existes ou não? Se a “história reza” ou não “reza”? Se é da Carochinha ou compendiada na Luso-brasileira?
Cassiel – Aos 12 anos eu pensava nos judeus com quem os nazis fizeram sabão e chicotes em laboratório, nas câmaras de gás; nas portuguesas e nos portugueses que foram torturados durante a ditadura; na minha mãe comigo ao colo no autocarro, de Gaia a Braga, e nas fraldas não descartáveis, todos os dias úteis até, eu, naturalmente, deixar de usar fraldas… Rezava… Uma vizinha contou-me que a minha mãe rezava muito nessa altura. “O mundo está podre, meu querido filho! O mundo precisa de oração!”- dizia ela com todo o fervor. Rezava, rezava muito, toda ela trovão e carne. Morreu 4 meses depois de eu ter deixado as fraldas. Nunca me ensinou a rezar. Não tivemos tempo.
Alcides: – Olha, e ainda bem, meu rapaz. Ópio por ópio, o que tenho lá em casa, faz melhor a qualquer um.
Márcia: – Orar ajuda-me... Dar graças ao fim do dia, sei lá… A mim, ajuda. (vai buscar um copo de água com açúcar)
Dada – Todos Cristos. Até tu. Cristos que nem se lembram, nem aceitam ser filhos.
Cassiel – O que é Cristo? (como se tentasse evocar na sua memória)
Alcides: – Porra! E ele a dar-lhe! E se fosses fazer a catequese e me deixasses ler o jornal? Olha, já sei: come um catecismo. Enquanto comes, não falas. Que tal, han?
Márcia: – (faz Cassiel beber) Toma, bebe tudo! E o senhor cale-se! (para Alcides) Deixe lá o homem desabafar…
Fausta(a sorrir, como se soubesse mais do que o que conta) Sabes, o Zé das barbas dizia que tinha andado com Ele na escola e que lhe escarrava nas costas, sem Ele se aperceber. Depois dizem que se arrependeu muito e que, por isso, obrigou-se, com profundos remorsos, a ler revistas de jetseeet e a envolver-se em todos os escândalos dos faamous avulsos, a ver desfiles faaashion, filmes blockbuusters, as telenovelas que podia, a ir ao futebol (como uma questão de vida ou de morte), a ir às paarties todas e a ser alcoólico; tudo como penitência, para ser um cidadão alheado. Para não ter tempo de Ser. Para não ter tempo de impor a sua existência a ninguém. Porque Cristo, para ele, era poder e, assim sendo, não deveria ser incomodado… Era assim para o pobre Zé das barbas, que morreu a fazer a barba com uma navalha, às 5 da manhã no dia dos namorados. Usava um papillon daqueles cor-de-rosa às bolinhas brancas, que logo ficou todo escarlate escuro. É… Para ele Cristo era poder.
Dada – o Zé das barbas também foi um Cristo… Mas daqueles que nunca chegam a ressuscitar. Que nunca chegam às cadeiras altas, nem vão para além das nuvens, como os filhos que se prezam. Pena ele não ter descoberto a tempo que a cruz é um brinquedo e as asas também (dos que não se vêem colados a pessoas reais, mas que se sentem mais do que aqueles que se vêem); e também só brinca quem quer. Mas ele tinha razão, sabes? Cristo é poder. Poder individual que se partilha e se transforma em força suprema. Porque amor de irmão sente-se por aqui (aponta para o coração; pausa) Mas é tudo só a brincar.
Cassiel – Ainda não percebi quem é Cristo…
Alcides: – Ai, o caralho do homem! Caga na doutrina, fôda-se. Lê Artaud e bebe um fino e depois, se queres um conselho de amigo, interna-te o mais rápido possível.
Márcia: – Não é essa doutrina, doutor Alcides. Não compreende que esta ainda não veio nos livros? Lá porque leu todos os livros carbonizados da Biblioteca de Alexandria e da Inquisição e dos clássicos aos contemporâneos, não o autorizo a prescrever finos a torto e a direito, entendido?!
(Alcides encolhe os ombros e continua a ler o jornal)
Fausta – Cristos ressuscitados, humanos sacrossantos, anjos de carne e osso – podemos ser tudo – se nos aproximarmos o suficiente da nossa cruz, ao ponto de conseguirmos arrancar os pregos à nossa própria imagem crucificada. Depois é só curarmos as feridas com Aloé Vera de brincar (olhando para Dada e piscando-lhe o olho); serrarmos a cruz ao meio ou, de preferência, em vários pedaços; esquecermos, por momentos, o buraco de ozono (que consta estar a fechar) e fazermos uma imensa fogueira para iluminar uma Noite como esta…
Cassiel – Eu não quero ser Cristo. Ser Cristo é sofrer e levar escarradelas nas costas sem se saber e, depois, dá demasiado trabalho essa coisa da cruz…
Dada – Ser Cristo é ser filho da Mãe maior, do Pai maior, que não te exigem senão a tua liberdade, a tua identidade mais verdadeira, mais nua, mais luz, menos cruz: porém, condição negada pelo próprio ser-humano, reinventando a sua própria imagem sempre que lhe convém. Ou pensa que lhe convém. Entretanto, esqueceu-se de tudo, menos dos traumas auto-infligidos. Não percebeste ainda que já sofreste o que tinhas a sofrer? Que Cristo na cruz já foste, com espinhos, pregos, arame farpado e todas as chagas?
Cassiel – E será o suficiente…?
Fausta – Incrível! Continuas a escolher enroscar-te…
Cassiel – Nunca soube ser diferente. Nunca me ensinaram no orfanato. Nem a mim nem a esse Zé das barbas… Houve um tempo em que eu devia ter andado a anti-depressivos e a anti-psicóticos. Mas escolhi a cocaína. E sinto-me culpado. Não sei se não teria sido melhor também ter cortado a carótida, distraidamente, ao fazer a barba. Assim parava a cabeça, parava o resto. Mas depois sentir-me-ia ainda mais culpado. Acho eu… Agora nem navalha tenho. Agora não tenho onde dormir e não consigo deixar este arame. Eles dizem que é por causa da crise que estou como estou. Por estar desempregado. Por me vender para poder... Vocês sabem… Mas eu acho que é por estar sozinho, depois de ter ignorado e rejeitado as coisas mais simples e mais complexas ao mesmo tempo e, no entanto, tão ao meu alcance… Fi-lo tantas vezes, que perdi a conta. Tudo porque nunca me ensinaram, em criança, a viver sem este arame, ou esta cruz, para mim é igual… A culpa é deles. Antes de ser minha, a culpa é deles.
Dada – Não. Não há culpas. Há esquecimento. Desaprendeste o brincar, o riso, o falar com as estrelas, o dar graças, como a tua mãe. Esqueceste-te de ser filho amado incondicionalmente, mesmo sem massa muscular. Tudo o que vos redimiria, a ti e a eles. Agora estás perdido numa enorme casa conspurcada por todos, por ti próprio. E tu até vês que continuam a envenenar-lhe os cantos todos os dias e ninguém pára. É por isso que não consegues comer, enquanto vês o veneno à tua volta a espumar. Talvez estejas um passo à frente deles, mas só um… E estás assim, porque os teus fantasmas vieram ao de cima e é o que vês todos os dias, mesmo sem te olhares ao espelho, porque já nem espelho tens.
Fausta – Estás assim porque sabes que os espelhos andam a iludir todos os imprudentes que mastigam e deglutem, entre o veneno, o próprio veneno. E já nem precisas do espelho. Estás assim porque tudo aquilo em que acreditavas está a desabar. Porque acordas cansado de ser como és e queres mudar, mas não sabes como.
Cassiel – Não, não sei mudar. Sozinho não…
Fausta – Vá… Larga o arame. Vai doer um pouco, mas já o suportas há tanto tempo, que nem vais notar. É uma dor que resgata e logo sara. Depois ensino-te a rezar sem pieguices. Mas substituis o sinal da cruz pelo sinal do coração. Assim… (faz o gesto de um coração com ambas as mãos) Em nome do Pai, do Filho, que também sou Eu, e da Eterna Mãe, Ámen! Vamos lá…
(Dada e Fausta repetem fazendo o gesto) Em nome do Pai, do Filho, que também sou Eu, e da Eterna Mãe, Ámen!
Cassiel – Tenho medo... (Fausta tenta tirar o arame invisível; ele ajoelhado) NÃAAO! Dói demais!... Não consigo… Vou estalar pelas fístulas! (cai prostrado no chão, respirando, sôfrega e descontroladamente) Convulsões!… Terramotos … (rebola e estremece) Tsunamis… Esvaio-me… (pausa) Sinto o meu coração a bater tão rápido! Cada batida aproxima-me mais da morte, eu sei, eu sei, eu sei…! (a falar cada vez mais baixo e escondendo a cabeça entre as mãos e braços)
Dada – Porém, faz-te mais vivo do que nunca.
Cassiel – Deixo-me ir… Deixo-me ir… (Cassiel parece que morre; Fausta tira devagar o arame invisível e deixa-o cair no chão; pausa; imobilidade total de Cassiel) Mais vivo do que nunca? (começa a arfar)
Fausta – Meu querido filho, até de respirar te esqueceste … Vá, comigo!… (Cassiel fica sentado de pernas meio abertas, trôpego) Inspira profundamente… Expira o dobro do tempo… Isso, faz essa peçonha sair … Outra vez, de costas direitas (Cassiel endireita as costas)……. Outra....... Isso!
Cassiel(mais calmo) Mas será que ainda existo? (de olhos fechados; Fausta ri) E Ele… Existiu?
Fausta – Não sei dizer-te. Talvez ninguém saiba, ao certo. Muitos acreditam, cegamente, que sim, outros afirmam e fundamentam, vigorosamente, que não. Outros, ainda, nem querem saber. Ninguém sabe, de facto. Contudo, agora falamos dele. Estranho, não é? Nem a Bíblia nem a Scientific American podem esclarecer-nos. (sorri e muda de posição; fica de costas) Mas, diz-me: não sentes nada? Tendo Ele existido ou não? Talvez a Bíblia tenha mentido desde sempre, talvez seja tudo verdade, talvez apenas metade, ou nem isso, mas não sentes nada? (perfila-se e acaricia o seu ventre)
Cassiel – Sem certezas, o que fazemos aqui? O que acrescentamos aqui para além da palavra escrita, falada e disto que somos? Há um vazio, um buraco negro aqui dentro…
Alcides: – Lítio, meu caro, é o que te faz falta, lítio e não deve ser pouco.
Dada – A carne, o papel, a palavra são a ilusão. Tu existes para além… disto.
Cassiel – Se é que existo, o que sou?
Alcides: – Bem, visto de que galáxia? No período de quantos séculos? Nada, meu caralho, és rigorosamente igual a nada. Ninguém se vai lembrar de ti daqui sequer a 10 anos.
Fausta – És tudo o que sentes, o que anseias, o que tens dentro, mesmo distraído da tua origem.
Dada – Olha à tua volta. Tudo, Todos te absorvem.
Fausta – És um corpo emprestado. Um alento em continuado movimento. Não estagnes na dor. Recorda-te quem és.
(silêncio e imobilidade total; até Dada)
Cassiel(levanta-se muito lentamente; braços abertos tentando manter o equilíbrio, mas também evocando Cristo crucificado; sorri, finalmente, de pé) Apetece-me… Apetece-me comer um ramo de violetas… (ri) A voar. (ri enquanto olha para Cima; Fausta e Dada misturam-se entre o público, mas ele não se apercebe; pensa falar para eles) Escutem-me bem: tenho fome de flores, sede de ser asa, sou o vale onde arde a cruz que outrora fui, onde se encarquilha e derrete o arame farpado que foi a minha casa, sou um cálice que transborda centelhas soltas de Sol, sou o antídoto de mim, … (olha à volta e vê que ambos, Dada e Fausta, desapareceram; breve silêncio de constatação – compreende que Fausta e Dada fazem parte de si mesmo – baixa a cabeça, acenando que sim com a cabeça)
Alcides: – Ai, que vou chorar!... (snifa, cinicamente)
Márcia: – Experimente só escutar, mesmo que não compreenda, pode ser?
Cassiel(reergue a cabeça) Escuta-te bem: és o teu fim e o teu princípio: morreste. Agora és menos corpo e mais consciência. Agora tudo está mais perto. (pausa)
Em nome do Pai, do Filho, que também sou Eu, que também sou Eu, que sou Eu, também, e da Eterna Mãe… Assim já é.
(Márcia faz o gesto com ele, sentada: sinal do coração com ambas as mãos, que no fim do gesto ficam unidas, palma com palma, junto ao xifoíde; Cassiel baixa a cabeça, em reverência a si mesmo, levanta a cabeça; olha para - quase - todos, enfrentando o público nos olhos, muito sério, não ameaçador; expectante, senta-se à mesa do café com Márcia e Alcides, olha para ambos esperando ser reconhecido)
Márcia: – Está em paz, não está, Dr. Cassiel?
Cassiel: – (acena afirmativamente) “Sou um alento em continuado movimento”…
Alcides: – Pelo menos enquanto actuar o que lhe puseste na água.
Márcia: – Era apenas água, nem açúcar tinha.
Cassiel: – Vai uma violeta? (tirando uma do bolso, meio murcha, que inala intensamente)
Alcides: – Vai é… (tira um cigarro do maço) disto! (pega no jornal e vai-se embora, deixando para trás a mochila)
Márcia: – (de cotovelos na mesa e mãos apoiadas no queixo; ar inquisidor, observando Cassiel) Pois é, pois é… Fez-lhe bem esse encontro com a extinção, sim senhor… (pausa; sem tirar os olhos de Cassiel) Oh, Tony, são duas saladas de fruta, faz favor!
Cassiel: – Não me leve a mal, mas há muito para fazer no parque, nos canteiros por aí. É preciso regar as flores…

À saída do café. (ao sair, entra Alcides; Cassiel e Alcides cruzam-se e olham-se)

Cassiel: – Esqueceu-se dos livros lá dentro…
Alcides: – Não, não esqueci. Aqueles já os tenho aqui… (aponta para a cabeça) Agora são para eles.
Cassiel: – Ah… Memória prodigiosa! (pausa) Eu esqueci-me de marcar um encontro, já lá vão uns meses… (Fausta aproxima-se e quase que lhe toca na nuca; ele sente, inclinando a cabeça, como que adormecendo na mão dela; pausa; ele desperta) Bom, agora há flores para regar! (sorrindo e expectante, percebendo que Alcides regressou para falar com ele)
Alcides: – (chegando-se mais a Cassiel e em tom de confidência) Não conte isto a ninguém… Mas… (hesitante) é que eu tenho um certo… dom com as plantas. Além disso, sei onde há água abundante e com a temperatura exacta. Sabia que uma violeta com boas condições irá florir por nove meses, e irá ” descansar” depois mais três meses? (pisca o olho) Interessante, não é? Elas terem um intervalo de florescimento… Mas não se esquecem do que são, han?

(Cassiel dá passagem a Alcides e saem juntos, enquanto este último continua a falar; a fala de Alcides vai-se desvanecendo à medida que ambos se afastam; Márcia começa a dançar kizomba de braços abertos e olhos fechados.)

Suzana Guimaraens

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