domingo, 4 de outubro de 2009

Porquê o porquê?

Porque é que os nossos pais não fazem perguntas e só os filhos é que as têm de fazer? Porquê?”

E por que é que não podemos ser nós a partilhar as “respostas”, mesmo sem que tenham de nos fazer as perguntas de que estávamos à espera? (E “nisto” não há idades, sabes bem.)

Por que razão é que não podemos abrir a boquinha sozinhos e desentupir as palavras que nasceram para ser soltas? Por que razão preferimos viver entupidinhos, agarradinhos a esse misto viciante de revolta e pena de nós próprios?

E por que, por outro lado, somos tão espertinhos ao dizermos tantas outras coisas que nunca pediram para ser ditas, que tanto magoam e expõem os outros, e não dizemos, com a mesma naturalidade e secura, aquilo que é urgente que se saiba de nós? Aquilo que, realmente, nos libertaria? Mesmo sem que tenham que nos fazer as perguntas certas na hora certa? Os nossos pais, os nossos amigos, os nossos companheiros, os nossos psicólogos e, porque não, todos os outros não-nossos?

“Como foi o teu dia?” “Viste algo de diferente hoje?” “Foste ao cabeleireiro?” “Quer dançar?” “És feliz?” “Como te sentes?” “Precisa de ajuda?” “O que precisa, ao certo, para se sentir bem?” “O que queres que eu te faça agora?” “Alguém te fez mal?” “Que mal te fizeram?”…

Por que é que os outros têm de ter o valor de adivinhar o valor de uma pergunta? E nós, o desvalor de não conseguirmos formular as nossas próprias questões e de dizermos o que precisamos, mesmo tendo o cérebro, o aparelho fonador e todos os dedos operacionais?

Teremos medo por sabermos que as coisas jamais voltarão a ser o que eram depois da verdade partilhada? E a responsabilidade ser nossa, apenas por não terem sido os outros a perguntar? Ou preferiremos viver com e nos nossos segredos e cruzes de estimação, por sermos incompetentes para vivermos de outra forma? E por que haverá tantas questões a fazer sobre as perguntas… ?

Mas, olha: a resposta é "Sim". Não à pergunta que fizeste, mas a outra que nem chegaste a formular: se conseguimos descarregar os outros dos seus dramas que os impedem de fazer as perguntas...

Porque, no fundo, era isso, não era? Porque, no fundo, tu sabes e eu sei que quem não formula as perguntas também tem o seu tumulto de dramas e rol de perguntas por responder.

Sim, a resposta é, incondicionalmente, afirmativa. Podemos ajudar quem não sabe ou não quer fazer perguntas - apenas dando o exemplo: descarregando os nossos próprios dramas sem que tenham de nos fazer as perguntas “certas” na hora certa. Demasiado simples? Admito.

"A questão é" se queremos descarregar o fardo. Se sentimos necessidade de mudar e de deixar cair devagarinho os nossos segredos e as nossas cruzes, enquanto deixamos crescer algo que nos torna, assustadora e irremediavelmente, diferentes, mais leves, todavia, maiores. Essa insustentável liberdade e essa incomensurável coragem de assumir a Resposta.

E pode nem ser por palavras, tudo preto no branco. Pode até ser desenhando, pintando, cantando, fotografando, dançando, um "ando" qualquer, desde que a resposta vá surgindo…

Mas, quereremos? - Que, afinal, também não passa de um ponto de interrogação. Mas, desta vez, um que colocamos apenas a nós mesmos. Porque é em nós que tudo começa e tudo acaba. Mesmo que não tenhamos começo nem fim.

E, já agora, como te sentes?

Vamos dançar?...

2 comentários:

Anónimo disse...

Vamos dançar, só isso!
Quero e exijo dançar, extasiar com a música e deixar as respostas trespassar, de dentro para fora, tudo o que me vai na alma, só isso e mais nada.
E sou mãe e não filha!

Alma disse...

E eu sou só Filha, se bem que, para ser mãe um dia, devo ter que passar por esta fase... Digo eu.

Gostaria de saber quem é o Anónimo. Grata. Beij*


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