terça-feira, 27 de outubro de 2009

Tal fora, tal dentro






Terá a castanha consciência de que um dia fora una com o ouriço - veludo e espinhos?


sábado, 24 de outubro de 2009

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Para Z

Mulher do olho de vidro, punhas de molho o olho e os teus remorsos, em água choca, num copo de vidro, para adormeceres com um buraco, como um buraco, imenso e disforme, tu e o vidro – e mais ninguém. E foi só para ver se morreste – e não por bem – que fui ao teu funeral – com mais ninguém. Leva contigo o meu inferno, onde hás-de arder, devagar e de mansinho, por decreto meu e de toda a tua família – que sente nojo, sim, mas só do olho, pobrezinho! – E, ainda meia cadáver e já em brasa, o teu olho há-de saltar e eu logo o hei-de apanhar para brincar aos berlindes da varanda do 7º andar da minha nova casa…

Para Q?

Para que serve uma boca
que não fala?
Para que serve um corpo
que não se sente?
Para que serve um talento
que não se materializa?
Para que serve um olho - sempre aberto -
que não (se) vê?

domingo, 11 de outubro de 2009

sábado, 10 de outubro de 2009

Or-acções

- Dada?

- Sim?

- Faz alguma diferença eu não pedir recibos no multibanco pensando poupar árvores, não usar sabonete líquido pensando evitar fazer-se mais plástico, usar lâmpadas económicas e retirar os carregadores das fichas e...

- Sim, toda.

- Toda?

- No teu universo que, afinal, é o universo de todos.

- Mas sinto-me alienada, ridícula, até, ao empenhar-me em gestos tão insignificantes, que mais me parecem perdidos...

- Os teus gestos simples são orações acompanhadas de acção.
São or-acções que brotam do teu coração, do coração do Planeta - que tu anseias apaziguar - e do âmago do próprio Cosmos.
Todos esses corações são um e o mesmo Coração em diferentes escalas, para onde se dirigem os teus actos, apenas nas tuas palavras, perdidos... Limpando, curas. Curas-te.
O Coração apenas Um: n a d a l h e s c a p a.

(silêncio)

- Dada?

- Sim?

- Este "Nosso" Coração sente que as or-acções são ainda muito poucas...

- "Ainda". Mas até uma grande epopeia começa com apenas uma pequena, quase perdida, palavra...

Para Ti

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Pedras Vivas







Vi-as e, iria jurar, elas a mim.
É daquelas coisas que gostaria de ter sido eu a almar...

domingo, 4 de outubro de 2009

Porquê o porquê?

Porque é que os nossos pais não fazem perguntas e só os filhos é que as têm de fazer? Porquê?”

E por que é que não podemos ser nós a partilhar as “respostas”, mesmo sem que tenham de nos fazer as perguntas de que estávamos à espera? (E “nisto” não há idades, sabes bem.)

Por que razão é que não podemos abrir a boquinha sozinhos e desentupir as palavras que nasceram para ser soltas? Por que razão preferimos viver entupidinhos, agarradinhos a esse misto viciante de revolta e pena de nós próprios?

E por que, por outro lado, somos tão espertinhos ao dizermos tantas outras coisas que nunca pediram para ser ditas, que tanto magoam e expõem os outros, e não dizemos, com a mesma naturalidade e secura, aquilo que é urgente que se saiba de nós? Aquilo que, realmente, nos libertaria? Mesmo sem que tenham que nos fazer as perguntas certas na hora certa? Os nossos pais, os nossos amigos, os nossos companheiros, os nossos psicólogos e, porque não, todos os outros não-nossos?

“Como foi o teu dia?” “Viste algo de diferente hoje?” “Foste ao cabeleireiro?” “Quer dançar?” “És feliz?” “Como te sentes?” “Precisa de ajuda?” “O que precisa, ao certo, para se sentir bem?” “O que queres que eu te faça agora?” “Alguém te fez mal?” “Que mal te fizeram?”…

Por que é que os outros têm de ter o valor de adivinhar o valor de uma pergunta? E nós, o desvalor de não conseguirmos formular as nossas próprias questões e de dizermos o que precisamos, mesmo tendo o cérebro, o aparelho fonador e todos os dedos operacionais?

Teremos medo por sabermos que as coisas jamais voltarão a ser o que eram depois da verdade partilhada? E a responsabilidade ser nossa, apenas por não terem sido os outros a perguntar? Ou preferiremos viver com e nos nossos segredos e cruzes de estimação, por sermos incompetentes para vivermos de outra forma? E por que haverá tantas questões a fazer sobre as perguntas… ?

Mas, olha: a resposta é "Sim". Não à pergunta que fizeste, mas a outra que nem chegaste a formular: se conseguimos descarregar os outros dos seus dramas que os impedem de fazer as perguntas...

Porque, no fundo, era isso, não era? Porque, no fundo, tu sabes e eu sei que quem não formula as perguntas também tem o seu tumulto de dramas e rol de perguntas por responder.

Sim, a resposta é, incondicionalmente, afirmativa. Podemos ajudar quem não sabe ou não quer fazer perguntas - apenas dando o exemplo: descarregando os nossos próprios dramas sem que tenham de nos fazer as perguntas “certas” na hora certa. Demasiado simples? Admito.

"A questão é" se queremos descarregar o fardo. Se sentimos necessidade de mudar e de deixar cair devagarinho os nossos segredos e as nossas cruzes, enquanto deixamos crescer algo que nos torna, assustadora e irremediavelmente, diferentes, mais leves, todavia, maiores. Essa insustentável liberdade e essa incomensurável coragem de assumir a Resposta.

E pode nem ser por palavras, tudo preto no branco. Pode até ser desenhando, pintando, cantando, fotografando, dançando, um "ando" qualquer, desde que a resposta vá surgindo…

Mas, quereremos? - Que, afinal, também não passa de um ponto de interrogação. Mas, desta vez, um que colocamos apenas a nós mesmos. Porque é em nós que tudo começa e tudo acaba. Mesmo que não tenhamos começo nem fim.

E, já agora, como te sentes?

Vamos dançar?...

E depois, tu

E depois, tu

Por uma força qualquer no arco das ramadas,
aprendi a iludir a insónia
com voltas muito certas de massa folhada ou bilros
e a não deixar a fruta sucumbir.

Por uma força qualquer no rigor da sombra,
habituei-me ao desenho das rotundas
e ao papel do vento nos relógios.

Aceitei por fim uma certa forma de medir o sal,
de pesar o medo, de não desconfiar do silêncio das portas
ou da firmeza dos cabides.

Havia uma regra, uma força qualquer no arco das ramadas
e no rigor da sombra.

E depois, tu.


David Fernandes


Pelo "rigor" de certas coisas...

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