sexta-feira, 10 de abril de 2009

Respiro, logo acredito

Eu gosto que me chamem “aldeã”, “rural”, e por aí. E admito, até, que existam aldeões bem mais civilizados do que eu, senão vejamos: em casa encontro-me sem televisão e possuo um leitor de DVD que funciona apenas quando lhe apetece, sobrando a rádio e a internet. Depois há os modems que vão desfilando e avariando (já vou no 4º em menos de um ano) e os blackouts domésticos extemporâneos. Não são raras as vezes que carrego no interruptor e gera-se a escuridão: “Hmph! Mais uma lâmpada!… Vamos lá ao quadro… Talvez tenha que ver com a carga eléctrica… Algum desajuste…” – monólogo interno de leiga. Mas, então, por que são poucas as casas de amigos que resistiram a uma lâmpada fundida, quando fui eu a carregar no interruptor? Jamais saberei… (Ou talvez saiba.)
Sem televisão, aldeã-suburbana, entre florestas de aviário (Parque Biológico e afins) e passadiços na praia, sempre com o som familiar (e tão dispensável) dos automóveis ao fundo, primata da tecnologia, andarei mais acordada, mais afastada do paradigma da escassez, com mais tempo para a fantasia, para o sonho, para a fuga? Aprenderei, no escuro, a encontrar a Aldeia-total-cá-dentro, esteja onde estiver?
Quando não posso vir para Cá (Aldeia I) haverá um recanto onde Saturno e Urano não estarão em oposição todo o ano, um espaço onde entendo a morte, o sofrimento e a solidão?
Cogito demais. Sonho também demais, mesmo muitas das vezes consciente de ser Eu o sonho.
Quando assim estou, limpo a casa às escuras e em silêncio, com um sorriso paciente, recém-descoberto. Sei que estou aqui por empréstimo. E é, justamente, neste ponto que me ocorrem ao pensamento os meninos palestinianos e os meninos tibetanos e os meninos que desconheço (porque nunca li ou ouvi falar deles, mas sei que estão por aí) e olho para aquela garrafa de água, que nunca há-de ser enchida (porque a água potável vem presunçosamente da torneira para o copo) e tento imaginar, por hipócrita solidariedade, o som da parede do quarto a rachar com um míssil ou como será ter 5 anos e vender o corpo, para poder alimentar-me e à família, a um chinês ou a um turista, no meu próprio país, onde não posso falar a minha própria língua e…
É… Deveria ser esta a ficção, mas não. Somos nós todos ali. Nos entanto, eis-nos aqui, deste lado – aldeões, suburbanos, cosmopolitas? E eu, onde estou e o que sou, assim nesta aparente distância?
E é, justamente, neste ponto que o coração começa a bater mais depressa, entre a revolta, a angústia, a ilusão de estar segura e a impotência bruta, sabendo que cada batida me aproxima mais da morte, mas faz-me sentir tão viva e tão estupidamente inútil.
É neste bater assaralhopado que substituo o sinal da cruz pelo sinal do coração e deixo orações nascerem à medida que as palavras se desentopem da boca... Deixei de as controlar. Vomito.
“Talvez seja o reequilíbrio” – apaziguo-me. “Talvez todos tenhamos o que merecemos, do átomo, à nação, ao Planeta…” – sinto.
Respiro. É o que me resta.
Na minha imaginação vive um Planeta. Está perto, mas é ainda demasiado diferente. Se eu pudesse fazer copy-paste da imaginação, ou upload (ó p’ra mim primata tecnológica a escrever!) mostraria como era. As palavras não são nada quando não há alma na sua génese. Por isso não consigo parar. A falta de erudição e de sentido artístico não são a questão. Um amigo meu diria: “caguei!”
“A questão é” como se aguenta uma ilusão que nos habita, ocupando já tanto espaço dentro de nós, mas estando ainda tão distante da realidade?
“A questão é” como se aguenta a felicidade neste santo vegetar por este “jardim-à-beira-mar-plantado”, sem fazer um corno para que as coisas mudem?
“A questão é” como saber o que está e o que não está ao alcance da minha mão, se não fizer nada para saber?
E, de repente, este querer, forçosamente, ser aldeã e ouvir todos os dias o doce-chilrear-dos-pássaros-sem-automóveis-ao-fundo e respirar prana-puro o dia todo, soou-me a provincianismo petulante e egoísta: “Suzana Maria, há tanto para fazer na cidade e tu aqui!”
A Aldeia lá estará nas tuas horas enfermas. Aguenta-te na cidade, inteira, fala às plantas e às pedras, porque só elas te entendem, realmente, e respira. Será assim tão pouco?

3 comentários:

serrata disse...

Não sou capaz de afirmações definitivas; não sou poeta. Fico-me pelas perguntas (no que gostaria de tornar-me especialista) acreditando que todos podem coisas mas não sem essa condição essencial que segundo o mestre é: "A questão é, quando não haverá cem poetas que confundem esse gesto com estilo."

'Será assim tão pouco?'

apedroribeiro disse...

original.

Filipe disse...

Uma vez que, para nos libertarmos, basta que tomemos consciência do objectivo que nos liga uns aos outros, temos que procurar o que nos une a todos. O médico que visita o seu paciente não se limita a ouvir as suas queixas. Através dele, é a humanidade que quer curar. O médico fala uma linguagem universal. O mesmo acontece com o físico, ao meditar as equações quase divinas que se aplicam ao átomo como à nebulosa. O mesmo acontece ainda ao simples pastor. Porque mesmo se guarda modestamente algumas ovelhas debaixo das estrelas, ao tomar consciência do seu papel, descobre que é mais do que um servo, é uma sentinela. E cada sentinela é responsável pelo império inteiro.
Só quando tomamos consciência do nosso papel, por mais pequeno que seja, é que podemos ser felizes, viver e morrer em paz porque o que dá sentido à vida dá semtido à morte.
De Antoine de Saint-Exupéry


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