segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Sexo

Sim, já se sabe o que é a revista Time, mas às vezes sai das marcas, senão vejamos o que afirma Ulrich Weinzierl sobre Kafka na edição September 1, 2008:
“Finally the literary stylite has fallen from his pedestal and is as much a sinner as you or I.”
Denotar-se-á aqui um certo regozijo? Naaa, impressão sua.
Mas e tudo por que…?
Parece que o brilhante escritor era assinante de uma qualquer “highbrow pornography”, facto que o habilitou, segundo o senhor Weinzierl, e sem margem para further judgments, a ter pés de barro e a descer ao nível da mediocridade dos comuns.
Na parte que me compete, não como consumidora de pornografia (apenas porque já “dei umas passas” e o que vi não curti; mas isso sou eu!) tirava-lhe o chapéu, a ele, não o meu (apenas porque não uso) e dava-lhe os meus parabéns: “Afinal, Franz, também era por isso que lhe saía tão bem…”
Sim, porque ou se faz, ou se reprime e quando se reprime, o que pode acontecer é enlouquecer ou, no mínimo, consumir porno.
Já agora aproveito para o desabafo: se porno fosse sinónimo de forma de arte, de amadurecimento de contemplação, de forma elevada de meditação, de sublimação ou, tão-somente, de fonte de um prazer autêntico, alicerçado na partilha, de ampliação de conhecimentos, “aprenda a dar prazer”, e por aí adiante…
Mas o que vi, ao nível dos filmes (e só posso falar pelo que vi) não ia além da repetição obsessiva de posições e movimentos estilizados , apenas direccionados para o prazer do homem, do homem-grunho, que ainda não sabe muito bem o que é um clítoris ou um ponto G, e muito menos o seu potencial, e cujo prazer tem, obrigatoriamente, que culminar sempre numa ou mais caras (porque convém mesmo que seja na cara) a escorrer sémen.
Uma vezita ou outra, mas…. “Oh, meuze amigoze!”… sempre?!
Ainda assim, estou em crer que, apesar de mercantilizado, o corpo humano (como desde sempre), no tempo de Kafka, ainda não estaria tão viciado nestes padrões. E se estivesse noutros, enfim… Se fazia bem ao Kafka, faz-me bem a mim.
A questão é: porque não evoluiu ainda mais a pornografia?
Por que se consome assim mesmo? Por que há quem goste dela tal e qual, acriticamente? Não é assim que há tráfego cibernético? Não é assim que dá dinheiro e dinheiro “makes the world go around?”?
Por isso, evoluir para quê e para quem? E quem é mesmo que quer evoluir? Quem pretende a derradeira metamorfose?
Acredito, ainda assim, que, a ter que existir pornografia, quanto melhor esta for, maior o prazer que todos temos, directa ou indirectamente.
Agora alucinando ainda mais, e se não houvesse mesmo pornografia e apenas sexo para todos (os que quisessem, obviamente) sem repressões e sem medos?…
Uma sociedade estruturada de maneira a que nunca ninguém sentisse necessidade de recorrer a porno, a cybersex, com ou sem webcam, a putas, a mulheres e crianças indefesas?
Era o Céu?
Quereriam todos este Céu?
Apenas sinto, mais do que sei que, com ou sem rosto, o sexo é uma “coisa” com Alma…

Pronto, admito: é um título enganador...



Suzanna

3 comentários:

Nelson disse...

E tudo isto porque alguém decidiu endeusar o Kafka. Porque decidem que as referências que têm devem ser perfeitas (sob uma qualquer prespectiva mais ou menos moralista). Porque algumas pessoas como esse Ulrich não permite que alguem como Kafka seja uma pessoa comum.
Mas qualquer génio é também (e antes da genialidade) uma pessoa comum com as virtudes e defeitos, com vontades e desejos, mais ou menos seguidoras das morais vigentes.

Quanto ao porno, ele existe porque há mercado para ele, porque há quem o consuma e quem ganhe com ele. Como há outros mercados ligados ao sexo mais ou menos aceites socialmente. Como há mercados ligados à violência, à guerra, à droga, etc...

A evolução pode até existir, mas para isso é necessário que exista criatividade e arte. Conceitos que não cabem muito na definição de porno.

Quando o porno evoului normalmente torna-se outra coisa, deixa de ser banal e é muitas vezes apelidado de erótico. A fronteira é ténue por vezes, mas depois de atravessada deixa de ser porno e até se pode tornar um objecto de arte.

Quanto ao sexo... só posso estar de acordo contigo, é uma "coisa" com alma! Ou deveria ser, pelo menos para ser sexo que dá prazer!

Filipe disse...

Até escrevi muitos considerandos, reportei-me à histórica repressão da Igreja e aos tempos em que eram as sacerdotisas que o faziam...Teci considerandos à origem da pornografia nos meios ricos e desocupados e na sua posterior democratização tal como ao tabaco aconteceu. Falava da sua evolução e dos requintes de malvadez a que tem chegado com o desvio e perversão de crianças e adolescentes! Depois admiti que a net tem tudo o que se queira ver mais ou menos soft! As mulheres mais lindas estão na net todas nuas ...o preço deve ser a única medida para o tipo de exibição! Mas era um texto demasiado longo e sem apoio por aturada investigação. Assim, apenas cá coloquei os tópicos dos considerandos e cada um pesquisará e ou fará so seus tranalhos de casa se quiser! Finalmente pergunto porque não enquadrar na sociedade os trabalhadores sexuais? Porquê continuar a empurrar a dita mais velha profissão do mundo para a clandestinidade?
Há dezenas de anos li um livro de ficção científica que falava de uma sociedade onde o sexo era ensinado e acarinhado desde cedo proporcionando assim boas e bem sucedidas experiências sexuais aos jovens adolescentes...onde o afecto e a amizade estavam presentes...fazia parte da sua educação para serem amanhã adultos felizes equilibrados e experientes também nessa área! Utópico? Não sei porque há-de ser exactamente ao contrário! A pornografia e o sexo clandestino prosperam exactamente por serem o fruto proibido! Agora, sexo pelo sexo, peço perdão, mas esse não tem mesmo alma nenhuma!"

Filipe disse...

Por exemplo, no soneto que se segue talvez não se vislumbre muita alma, embora não me atreva a dizer que será apenas fruto do desejo, duma forte paixão! Contudo, mesmo o poeta declara que se lhe não peça alma… Assim, deixarei que cada um o interprete e diga o que se lhe oferecer…


SONETO DE AMOR

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma… Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas…
E que os nossos flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua…, - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se…

Depois… - Abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus, não digas nada…
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

Autor desconhecido

De Jorge Mota


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